O encontro do dia 15 de Setembro foi sobre o livro Pensar Nagô de Muniz Sodré. A Pâmela Guimarães iniciou o debate com a apresentação do capítulo “Exu inventa o seu tempo” e trouxe contribuições sobre o texto apontando alguns caminhos que Sodré percorreu na sua escrita. A partir do provérbio iorubá “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje” o autor indica novas leituras possíveis sobre temporalidade que vão além da lógica ocidental.
Tal representação pode ser lida a partir de perspectivas éticas, enunciado regras morais, formação discursiva mítica, codificando regras de moralidade que sustentam sistemas de crenças e política, pensando dever com a comunidade e os valores de tal dever ético. Essas são leituras possíveis e ocidentais, Sodré não encerra sua apresentação aí, ele continua e vai além, a partir de uma lógica contrária, sem linearidade. A linearidade determinada no pensamento ocidental no que diz respeito ao tempo exclui a agência de si e de uma nova história possível.
Sodré traz o aforismo como um índice capaz de direcionar o percurso para responder “O que é Exu” o apontando como princípio sagrado: Uma força dinâmica, constituidora de subjetividades, a partir de uma completa mútua constituição em contato com as multiplicidades do encontro com o outro e com o mundo. Por fim, Sodré indica que Exu é também constituidor de vínculos. A partir destes princípios, Exu abre caminhos, alargando a multiplicidade de rotas porque o que impulsiona a diversidade é a ação.
No próximo encontro de leitura semanal promovido pelo LIDD (21/09) o texto discutido foi “Minha mãe pintou meu pai de branco: afetos e negação da raça em famílias interraciais”, de Lia Vainer Schucman, Belinda Mandelbaum e Felipe Luis Fachim. Conduzido por Sandra Martins, o encontro explorou questões cruciais, incluindo a afetividade na população negra e a complexidade da identidade racial. Este estudo aprofunda-se nas complexidades das famílias interraciais no Brasil, levando em consideração não apenas sua diversidade, mas também as tensões internas que surgem em relação à identidade negra.
Neste contexto, torna-se evidente que a definição de uma família como interracial é longe de ser objetiva; ela muda de acordo com quem a observa, criando uma narrativa subjetiva e multifacetada. A ausência masculina em muitas dessas famílias cria estruturas matriarcais, onde as vozes femininas assumem papéis centrais, e a negação da raça torna-se, também, parte dessas dinâmicas.
A negação da raça, muitas vezes camuflada pelo afeto, é uma parte significativa desse cenário. Mães que se envolvem emocionalmente com pessoas negras, mas que “não veem a cor” em seus parceiros ou filhos, criando uma ilusão de igualdade que, na realidade, mascara o racismo subjacente. Tanto brancos quanto negros dentro dessas famílias empregam mecanismos de negação para silenciar a raça, acreditando erroneamente que esse silenciamento é uma forma de evitar o rótulo de racista.
O encontro destacou a necessidade urgente de mais diálogo sobre as relações interraciais no Brasil. Além disso, evidenciou a urgência de enfrentar as raízes profundas do racismo, não apenas nas estruturas sociais, mas também nos lares e famílias brasileiras. A negação da negritude em famílias interraciais não apenas perpetua estereótipos, mas também sublinha a complexidade e a urgência de uma mudança profunda em nossa sociedade para verdadeiramente superar o racismo.
Bárbara Valentine e Hellen Freitas