nossas publicações

RELAÇÕES RACIAIS: ATRAVESSAMENTOS PSICOSSOCIOLÓGICOS

relações raciais

O presente texto tem por objetivo expor os conceitos acerca da definição de psicossociologia, bem como ressaltar a abordagem do tema pela ótica de Sigmund Freud e Jacyara Nasciutti. Com correlação da ideia de autores como Sílvio Almeida, Grada Kilomba, Neuza Santos Souza e Lélia González, busca-se compreender o papel do processo de identificação psicossocial na constituição das relações raciais e como elas são atravessadas, bem como explicitar os processos de subjetivação que envolvem o conceito de raça e como eles são inscritos no psíquico do sujeito negro.

PSICOSSOCIOLOGIA

Segundo Jacyara Nasciutti (1996), a psicossociologia se manifesta na interdisciplinaridade da relação entre psicologia e sociologia, dada a tensão que existe entre elas, na medida em que a sociedade transcende o indivíduo enquanto é constituída pelo mesmo, e o indivíduo, inerentemente específico, é formado em contato com os outros, com o coletivo. Assim, apesar de seus contrastes, o social e o psicológico são inseparáveis. Uma boa relação nesse sentido é a dualidade entre identidade e identificação: a identidade é singular, mesmo que esteja sujeita a processos identificatórios, por outro lado, proporciona a emergência de identificações, que mediam, moldam e fortalecem especificidades. A identificação reafirma uma identidade e proporciona ao indivíduo um ambiente confortável no qual ele pode explorar suas particularidades.

Freud (2011) foi sensível à linguagem das peculiaridades humanas ao buscar a compreensão de questões como o aparelho psíquico e o significado dos sonhos, bem como ler de modo consciente as pessoas que os produziam. Cada pessoa só pode compreender o corpo se for mapeado pelos recursos da linguagem, ou seja, movido pela linguagem, pelos sentimentos, pelos desejos e, portanto, por pulsão. O próprio ato de nomear confere significância ao corpo bem como os acolhimentos que recebemos no desenvolvimento primário ainda na fase da gestação. Freud acredita ainda que a capacidade para o amor e para o trabalho, a possibilidade de estabelecer relações, se dá através da inscrição no laço social, uma conexão de relações que abarcam afetos e significações. Sendo assim, a identidade configura-se como constituinte do indivíduo e indispensável para a dinâmica social. 

IDENTIDADE E RELAÇÕES RACIAIS

A partir do que foi exposto, é possível afirmar que a identidade é fruto de múltiplas relações. Entretanto, tais relações podem ser ferramentas de controle através da manutenção de identidades, o que ocorre nas sociedades ocidentais, por exemplo. Os indivíduos são assujeitados, tornados sujeitos através de uma série de mecanismos que vão desde ao registro geral feito no nascimento de uma criança até os estereótipos que podem ser produzidos em torno de uma pessoa ou grupo, de forma a produzir aceitação ou marginalização.

O filósofo Sílvio Almeida no prefácio do livro Armadilha da identidade de Asad Haider (2019) aponta para as políticas identitárias e afirma que a identidade é usada pelo sistema capitalista como um instrumento de demarcação ao transformar pessoas em “negros” e “brancos”. Sendo assim, ela revela seu efeito de “reafirmação da subjetividade colonial”, ou seja, é necessário classificar indivíduos para facilitar o processo de inferiorização de grupos de modo que sejam postos à margem da sociedade por determinações de cunho econômico-político-ideológico.

Ainda que haja avanços em relação às questões étnico-sociais na atualidade, a vivência não-hegemônica continua invisibilizada, silenciada e marginalizada. A raça perpassa o indivíduo, ainda que este tente desconsiderar os marcadores sociais que o atravessa, principalmente quando se trata de uma pessoa negra. A ausência de equidade social, os estigmas reproduzidos pela mídia, as estatísticas de morte e os diversos impasses presentes na dinâmica social denotam o racismo estrutural tão bem impregnado no Brasil. Nesse contexto, a psiquiatra e psicanalista Neusa Santos Souza (2021), sob ótica da psicanálise, retrata em sua obra “Tornar-se negro” os sofrimentos psíquicos que acometem pessoas negras pela falta de consciência acerca de si mesmo, como consequência do racismo e da internalização do padrão branco como um ideal a ser atingido.

Ela aponta que a cultura ocidental atribui ao homem um valor social, de modo a individualizar subjetividades e atrelar a identidade do indivíduo à materialidade do mundo. Por isso, as sociedades são marcadas pela criação de um indivíduo ideal, o indivíduo valorizado, que possui raça definida, o Outro é quem afasta-se da “regra” e deve ser excluído, no mínimo invisibilizado, para que haja a conservação da estrutura admitida. Nesse sentido, o branco é a norma, o ideal de pureza, beleza e civilidade. 

Em uma sociedade em que o branco é o referencial, o negro é o Outro, definido como inferior ao ser Ideal. Por conseguinte, segundo Souza, o negro possui um “duplo desafio”: conhecer a si mesmo e eliminar-se. Conhecer a si mesmo significa compreender-se como um sujeito único, revestido de valores e particularidades como todos os indivíduos, bem como atentar-se para a sua forma de ser e estar no mundo. Em contrapartida, eliminar-se significa internalizar o indivíduo ideal, branco, e recusar a si mesmo ao reconhecer a sua impossibilidade de atingir o desejo de assemelhar-se a tal. Decorrente do exercício de eliminação do Outro, existem vários mecanismos de anulação da negritude, como o embranquecimento estético e epistemológico.

O embranquecimento estético se dá quando a sociedade define autoridade ao corpo branco conferindo-lhe o ideal de beleza e ao negro, ultrajado pelos seus fenótipos, como o animalesco, feio e subserviente, busca assemelhar-se à norma a partir de alisamento capilar, procedimentos de clareamento de pele ou maquiagem, e mais que isso, o embranquecimento pode perpassar as relações de modo que as pessoas busquem constituir famílias com pessoas brancas com o objetivo de clarear a família e assegurar para as próximas gerações o conforto da branquitude. Já o embranquecimento epistemológico envolve a noção de que os saberes e conhecimentos admitidos pela população negra são invalidados, uma vez que advêm de uma população intelectual inferior e subalterna aos brancos, portanto, são produções insuficientes. Entretanto, tendo em vista que o marcador social de raça foi concebido para materializar nos corpos a hierarquia proposta pelo capitalismo, podemos constatar que não há diferença intelectual entre raças. A partir desta lógica de apagamento, ocorre o embraquecimento, ao transferir o conhecimento de autoria de pessoas negras para um ideal branco, um exemplo é o fato de o autor Machado de Assis, um homem negro, ser retratado na sociedade como um homem branco. Ou seja, quando não é possível negar uma epistemologia negra, ela é redefinida para que se torne branca no imaginário social.

Tais mecanismos de anulação impactam severamente a vida da população negra. A respeito disto, a psicanalista Grada Kilomba (2019) desdobra a ideia de racismo cotidiano e a forma como ele é refletido na percepção de si:

Toda vez que sou colocada como “outra” – seja a “outra” indesejada, a “outra” intrusa, a “outra” perigosa, a “outra” violenta, a “outra” passional, seja a “outra” suja, a “outra” excitada, a “outra” selvagem, a “outra” natural, a “outra” desejável ou a “outra” exótica –, estou inevitavelmente experienciando o racismo, pois estou sendo forçada a me tornar a personificação daquilo com o que o sujeito branco não quer ser reconhecido. Eu me torno a/o “Outra/o” da branquitude, não o eu – e, portanto, a mim é negado o direito de existir como igual. (KILOMBA, 2019, p. 52-53)

 A supremacia branca, por sua vez, guarda um pacto de omissão da sua posição na estrutura social para conservar os privilégios consequentes da estabilidade da hierarquia social, de modo a garantir o gozo de seus privilégios.

Tendo em vista as concepções apresentadas, é possível concluir que o marcador racial está imbricado em todas as instâncias da sociedade. Desde as relações familiares, políticas e até legais, não existe estrutura social, no sistema capitalista, sem a noção de raça. Consequentemente, a dimensão psicossocial do sujeito também está associada a estes mecanismos de subjetivação, as identidades impostas através de aparatos identificatórios, direcionam a população negra  para a base da pirâmide social. Aqui, o social atravessa o psíquico e remete à população negra inúmeros desafios para lidar com todas as questões que permeiam a sua vivência. Nesse sentido, a ativista Lélia González, grande nome do feminismo negro no Brasil, ensina:

“O importante é procurar estar atento aos processos que estão ocorrendo dentro dessa sociedade, não só em relação ao negro, ou em relação à mulher; você tem que estar atento a esse processo global e atuar no interior dele para poder efetivamente desenvolver estratégias de luta”. (UAPÊ, 2000)*

REFERÊNCIAS

*Entrevista concedida à revista SEAF (Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficos), republicada em forma de depoimento, como homenagem, na UAPÊ REVISTA DE CULTURA N.º 2 – “EM CANTOS DO BRASIL” Editora Uapê , março 2000.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. (1920-1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

HAIDER, Asad. Armadilha da identidade: Raça e classe nos dias de hoje. São Paulo: Veneta, 2019.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano. 1. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

NASCIUTTI, Jacyara C. Rochael. Reflexões sobre o espaço da psicossociologia. In: Documenta Eicos, 1996, nº 7.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *