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HETEROCENTRISMO – Um dispositivo de poder

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Dedê Fatumma (2023), em seu livro Lesbiandade, faz análises críticas sobre discursos baseados no heterocentrismo, que considera as identidades de gênero e orientação sexual a partir de um padrão normativo, envolvendo relações de poder. Trata-se de um conjunto de discursos sociais respaldados por vertentes científicas que submetem orientações sexuais e identidades de gênero à “primazia de uma heterossexualidade compulsória” (JESUS, 2013). Articulado com categorias patologizantes das ciências médicas, essa dinâmica impõe formas hegemônicas de viver, definindo a heterossexualidade como a única possibilidade de relação natural e normal.

Influenciando o pensamento ocidental e inserindo-se na tradição do modernismo (BIRMAN, 2012), a psicanálise levou campos como a medicina e a psiquiatria a reforçarem discursos patriarcais e lesbofóbicos baseados em fundamentos de Freud, como revela o estudo de caso clínico sobre uma jovem lésbica:

“O que certamente tem importância maior é a jovem, em seu comportamento para com seu objeto amoroso, haver assumido inteiramente o papel masculino, isto é, apresentava a humildade e a sublime supervalorização do objeto sexual tão características do amante masculino […]. Havia, assim, não apenas escolhido um objeto amoroso feminino, mas desenvolvera também uma atitude masculina para com esse objeto.” (FREUD, 1920, p. 148)

Freud adota o heterocentrismo como perspectiva em sua análise ao afirmar que a orientação sexual de sua paciente corresponde a um comportamento masculino. Esse discurso manteve o regime sexual (FATUMMA, 2023) conduzido pela patologização dos corpos “desviantes”. Assim, mulheres lésbicas eram submetidas a internações em hospitais psiquiátricos e terapias de reorientação sexual, além do uso de eletrochoques e hormônios femininos na tentativa de corrigir “anormalidades” (Daniel & Baudry, 1977).

Em 1973, a homossexualidade foi retirada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno mental, e nove anos depois, a Organização Mundial de Saúde (OMS) excluiu a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID). No entanto, discursos de ódio continuam sendo alimentados por pensamentos fundamentalistas e conservadores, refletindo-se nos dados sobre violências lesbofóbicas, como estupro corretivo e lesbocídio. Esse raciocínio é essencial para entender as interseccionalidades na vida das mulheres lésbicas negras.

A celebração do mês do Orgulho LGBT é, portanto, de extrema importância. Esse período não apenas reconhece as conquistas alcançadas pela comunidade LGBT ao longo dos anos, mas também ressalta a necessidade contínua de combater preconceitos e discriminações. O Orgulho LGBT promove visibilidade, apoio e solidariedade, além de fortalecer a luta por direitos iguais e o respeito às diversas identidades e orientações sexuais. Celebrar o Orgulho LGBT é reafirmar o compromisso com a igualdade e a dignidade para todas, todes e todos, independentemente de sua identidade ou orientação, criando um espaço de resistência e afirmação contra a opressão histórica e atual.

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