Apresentação
No artigo “Aprendendo com a outsider within” (2016), a socióloga afro-americana Patricia Hill Collins traz uma importante leitura acerca da relação entre estereótipo, raça e gênero: o conceito de “imagens de controle”.
A autora nos fala sobre uma “representação de imagens extremamente definidas e controladoras da condição feminina afro-americana que têm sido centrais para a desumanização de mulheres negras e para a exploração do seu trabalho” (Hill Collins, 2016, p.103). Nesse contexto, as imagens de controle passam a ser analisadas para além de meros clichês, atuando como elementos operacionais dentro de estruturas de poder que estigmatizam, reduzem e, justamente, desumanizam mulheres negras.
Ao nos debruçarmos sobre as inúmeras representações de mulheres negras empregadas domésticas na história das telenovelas, encontramos imagens de controle que fetichizam e objetificam seus corpos e subjetividades. Produções como Mulheres Apaixonadas (2003) e Renascer (2024) mostram personagens atraentes, que serviam ao desejo sexual dos patrões brancos. Tal problema é fruto de raízes que remontam ao período de escravização: a exploração do trabalho — prestação de bens/ serviços domésticos e serviços íntimos (geralmente não consentidos) — de mulheres negras.
I
Sem dúvidas, um dos grupos mais atingidos pelas políticas de imagem da telenovela foram os negros. Segundo o pesquisador Joel Zito Araújo (2000, p.35), “o processo de criação e produção de telenovelas tem-se abastecido no reservatório dos estereótipos negativos e amparado nos resíduos da memória coletiva, que é também reflexo de situações sociais reais que discriminam racialmente negros (…)”.
Por mais de 70 anos, as novelas foram escritas majoritariamente por autores brancos, pertencentes às classes altas e com visões de mundo distintas da grande parcela da população, seguindo clichês narrativos, repertórios e imagens problemáticas na escrita de personagens, principalmente as/os negras/os. Nesses casos, diversas dimensões de opressão se aglutinam: racismo, preconceito de gênero, classe, etc.
No brilhante ensaio “Racismo e sexismo na cultura brasileira” (1984), a pensadora e ativista amefricana Lélia Gonzalez versa acerca dos estereótipos que a imaginação branca possui em relação às mulheres negras: i) a “mãe preta”, ligada à um dever maternal quase que compulsório; ii) a “mulata”, sensual e hiperssexual e iii) a doméstica, funcionária obediente e invisível. Estas duas últimas figuras estariam interligadas por uma unidade: a imagem da mucama, termo que o Dicionário Aurélio (apud Gonzalez, 1984, p. 229) “assim define: (Do quimbumdo mu’kama ‘amásia escrava’) S. f. Bras. ‘a escrava negra moça e de estimação que era escolhida para auxiliar nos serviços caseiros ou acompanhar pessoas da família e que, por vezes era ama-de-leite.’”
Lélia evidencia a função da mulher escravizada dentro do sistema produtivo (prestação de bens e serviços) e sua ligação com a o papel da “amásia”: “não é por acaso que, no Aurélio, a outra função da mucama está entre parênteses. Deve ser ocultada, recalcada, tirada de cena. Mas isso não significa que não esteja aí, com sua malemolência perturbadora. (ibid: p.230)
II
Pensando nas inúmeras representações de empregadas domésticas nas novelas, isto é, quando não eram totalmente invisibilizadas, apareciam em papéis ligados ao sexo proibido ou ao cuidado maternalista para com seus patrões. Tais imagens controladoras se interligam também à questão de classe, já que as personagens, de modo similar, prestam serviços como empregadas domésticas/cozinheiras de contratantes brancos.
Uma figura recorrente no realismo melodramático eram as empregadas domésticas hiperssexualizadas, mulheres atraentes que serviam ao desejo dos homens brancos e causavam inveja nas rivais brancas. A fim de denotar este estereótipo, Lélia usa o termo “mulata” sob perspectiva perspectiva crítica, tendo em vista todo o passado de racismo, sexualização, objetificação e animalização por trás dele. Essa imagem definidora é chamada de “Jezebel” (Hill Collins; Carrera, 2021), que representa a hiperssexualização do corpo da mulher negra, capaz de justificar abusos e violências sexuais.
Duas personagens de novelas contemporâneas que se adequam à imagem da Jezebel são Zilda (Roberta Rodrigues), de Mulheres Apaixonadas (Manoel Carlos, 2003), e Ritinha (Mell Muzzillo), do remake de Renascer (Benedito Ruy Barbosa; Bruno Luperi, 2024).
Zilda
Zilda não cedia aos assédios do filho dos patrões, Carlinhos (Daniel Zettel), adolescente prestes a se graduar no Ensino Médio, ansioso para perder sua virgindade. As cenas e diálogos entre os dois sempre envolviam importunações sob forma de “flertes”, “cantadas”, elogios excessivos e piadas de conotação sexual da parte dele, reprimido pelos familiares e pela própria Zilda para que viesse a respeitá-la.
A partir desse núcleo retratado com tom cômico, o caso foi parar na Justiça devido às corriqueiras cenas abusivas. Uma petição do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos de Jundiaí (SP), segundo o site da Notícias da Tv, assinalou na época que a narrativa do núcleo de Zilda e Carlinhos “tem inserido na cabeça de adolescentes o desrespeito e insinuado que a categoria de empregadas domésticas, além de servir à família com seu trabalho e dedicação, deve servir aos desejos sexuais dos pequenos iniciantes, como se fossem meretrizes à espera do patrãozinho” (Notícias da Tv, 2023, online).
Em resposta à entrevista para a Folha de São Paulo, o autor se pronunciou: “quando há na novela uma enfermeira e um sujeito se interessa, pronto, lá vem o sindicato (…) É como se essas profissionais não fossem capazes de provocar interesse em um homem, a não ser por suas qualidades profissionais. Ainda não sei se farei o Carlinhos transar com a Zilda, mas, se tiver, faço” (Folha de S. Paulo, 2003, online)
O texto de Manoel Carlos não abria margem para uma representação crítica, capaz de contribuir com o debate acerca do assédio em local de trabalho. No final, Zilda acaba cedendo ao assédio do “patrãozinho”, agora, desejando o intercurso sexual com ele. “Tava esperando o hominho… Vem”, diz a personagem deitada na cama dele, vestindo uma toalha, antes de fazer sexo com Carlinhos.
A mensagem contida no interesse sexual de Carlinhos por Zilda revela uma prática do patriarcado e da masculinidade hegemônica branca na qual “transar era uma maneira de confrontar o Outro, assim como uma forma de se aprimorar, de deixar para trás a ‘inocência’ branca e entrar no mundo dos ‘experientes’”, talvez por acreditarem que “pessoas não brancas têm mais experiência de vida, são mais mundanas, sensuais e sexuais porque são diferentes” (hooks, 2019, p. 60). Nesse jogo de alteridade ligada ao desejo, o filho branco dos patrões, encontra em Zilda, uma mulher negra retinta, sua porta de entrada para a iniciação sexual. Algo similar é descrito por bell hooks no texto “Comendo o outro: desejo e resistência”:
“Conseguir um pouquinho do Outro, neste caso tendo relações sexuais com mulheres não brancas, era considerado um ritual de transcendência, um movimento de se aventurar num mundo em que a diferença seria transformadora, um rito de passagem aceitável. O objetivo direto não era apenas possuir o Outro sexualmente: era ser mudado de alguma forma pelo encontro. “Naturalmente”, a presença do Outro e o corpo do Outro eram vistos como algo existente para servir às finalidades do desejo do homem branco (…) (hooks, idem: p.61)”
Ritinha
Mais de vinte anos depois, o público novamente veria outra personagem Jezebel em cena: Ritinha de Renascer. Um caso recente de hiperssexualização do trabalho doméstico que foi enquadrado como um papel sensual.
Ritinha ajuda a mãe, a empregada idosa Inácia (Ednalva Barbosa), na casa de Zé Inácio (Marcos Palmeira). Ela é a versão contemporânea das heroínas negras amadianas, reproduzindo a imagem da mulher “de cor” que esbanja sensualidade a todo momento; mãos na cintura, um gingado enquanto caminha e diversos casos amorosos e cenas de sexo ao longo da trama.
Primeiro, com o matador de aluguel Damião (Xamã), homem que resolve tudo à base da brutalidade, machista e infiel com, mantendo affair com Eliana, uma mulher branca (Sophie Charlotte). De modo a se vingar, Ritinha dá em cima dos filhos do patrão, estando um deles reproduzindo o estigma do “negro boa-vida” (Marcello Mello Jr.). No final da trama, acaba se envolvendo com o ex de Eliana.
Com Ritinha não houve polêmica, muito pelo fato do texto ter sido atualizado e a própria trama se orgulhar da representatividade no elenco composto por atrizes e atores negros e afro-indígenas. Mesmo assim, é de se ressaltar todo o repertório visual, narrativo e histórico da personagem: Ritinha está também a serviço do olhar, do desejo e do prazer dos homens. Como Gabriela, tem jeito “atrevido” e “cor de canela”. Sua música tema não poderia ser diferente: “Toda menina baiana tem um jeito”.
À guisa de conclusão
As imagens de controle lançadas às personagens femininas servem como atualizações problemáticas, reducionistas e prova como a colonialidade é também estética e narrativa. Ao refletir sobre as questões levantadas pelas empregadas domésticas, é inegável a presença de definições opressivas sobre o corpo, a sexualidade e a subjetividade da condição feminina negra. Também, nos faz questionar: qual seria o contraponto dessas personagens domésticas hiperssexualizadas? Teríamos personagens empregadas ainda a serviço das estruturas de dominação?