Uma vez, já há algum tempo, assisti à uma cena da série “Coisa Mais Linda”, produzida pela Netflix em 2019. O corte mostrava escancaradamente a diferença entre os ideais do feminismo branco e do feminismo negro, mas não foi isso o que mais me chamou atenção.
Trazendo um breve contexto, nessa produção em questão, Maria Luíza (Maria Casadevall) e Adélia (Pathy Dejesus) são duas amigas que decidem empreender juntas nos anos 1950 no Rio de Janeiro. Na cena, as duas discutem no meio de uma deserta rua após se verem diante de um grande desafio:
Malu argumenta: “Eu ‘tava lutando pelo meu direito de trabalhar. Eu deixei o meu filho na casa da minha mãe. Eu ‘tô tentando fazer alguma coisa pela minha vida, só que tá muito difícil!”
Adélia brada: “Chega, Malu! Lutando pelo meu direito de trabalhar..? Eu trabalho desde os 8 anos de idade! A minha avó nasceu numa senzala e é difícil. Eu trabalhei 6, 7 dias na semana. Saía de casa às 4 horas da manhã, ficava mais de 1 hora no ônibus na ida, mais de 1 hora no ônibus na volta! E chegava em casa a Conceição ‘tava dormindo! Tudo isso pra pôr um prato de comida na mesa. Isso sim, pra mim, é relevante. […] Eu sinto falta da Conceição todos os dias. Seu filho já te pediu alguma coisa que você não pode dar?”
O principal contraste da relação das duas mulheres está, para além da cor da pele, na diferença entre a realidade privilegiada de Malu — recém chegada ao Rio, vinda de São Paulo — e do cotidiano de sobrevivência experienciado por Adélia, mulher negra que vive entre os morros e vielas da cidade carioca desde que nasceu, e que antes de arriscar o pouco que tinha ao se juntar a herdeira Maria Luiza, atuava como empregada doméstica nas casas de algumas famílias ricas da capital.
Confesso que essa cena talvez tenha sido uma das primeiras que me fizeram refletir sobre como algumas vivências são diferentes dependendo da sua raça, e, principalmente, como alguns padrões continuam se repetindo incessantemente mesmo após tanto tempo.
Falando da vida real e do hoje, o Brasil tem mais de 11 milhões de mães solos em seu território. Sobretudo, mulheres negras, e que vivem predominantemente nas periferias das grandes capitais do país, como Rio de Janeiro e São Paulo.
Notou alguma similaridade com a ficção ?
Não é incomum vermos uma grande quantidade de Adélias por aí, saindo às 4 horas da manhã todos os dias para pôr um prato de comida na mesa. Sozinhas. E mesmo que não estivessem, de alguma forma ainda estariam.
Mulheres. Negras. Mães. Cada um desses rótulos carregam sobrecargas diferentes. E isso é somente a pontinha do iceberg.
Acredito que o que mais tenha me chamado a atenção lá atrás — quando eu tinha aproximadamente 15 anos — é como a nossa sociedade estruturalmente racista recai diretamente nelas: as mães negras. Mães que são condicionadas a limitar o seu afeto, o seu tempo e a sua maternidade aos seus próprios filhos porque precisam garantir a segurança e a sobrevivência deles, independentemente de qualquer ameaça.
Isso vem desde a época da colonização. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, não é como se as consequências disso tivessem se dissipado.
Infelizmente, o racismo continua existindo. E os sacrifícios das mães negras também.
Até porque, mesmo durante as jornadas exaustivas de trabalho e dos diversos tipos de privação, qual filho(a) de uma mãe negra nunca ouviu as seguintes frases?
“Não esquece dos documentos antes de sair de casa.”
“Esteja sempre bem arrumado (a). Vê se não esquece de passar hidratante.”
“Pegue a nota fiscal de tudo que você comprar.”
“Não corra, principalmente se estiver de capuz que é pra não te confundirem com um bandido.”
Apesar da dor de cada frase dessas, o que fica é a gratidão por, em meio à tanto caos, essas mães ainda encontrarem maneiras de salvar os seus filhos com cuidado.
Isso, pra mim, é além de relevante: é o amor em sua forma mais pura e genuína.
Um salve à todas elas, que (r)existem para que possamos ser.