O trabalho de Harmonia Rosales, artista estadunidense com descendência afro-cubana, re-interpreta os cânones da pintura, misturando elementos das culturas negras às iconografias mais conhecidas da História da Arte, como “O Nascimento da Vênus”, de Sandro Boticelli.
Rosales se apropria de obras icônicas do Renascimento europeu e substitui a centralização dos corpos brancos por corpos negros femininos, a exemplo da série “Black Imaginary To Counter Hegemony – B.I.T.C.H.” (2017), deslocando a corporeidade negra de séculos de apagamento e sub-representações na cultura visual do Ocidente.
Transitando entre iconografias religiosas e mitológicas, a série B.I.T.C.H. simboliza, sobretudo, a ancestralidade e o divino feminino iorubá como estratégias de reivindicação artística e de contravisualidade (Mirzoeff) na contemporaneidade. Neste trabalho, mobilizamos o imaginário produzido pela artista para analisar seus potenciais estéticos e culturais, observando como a ressignificação das tradições ocidentais e das representações figurativas atua para tornar as mulheres negras dignamente visíveis na História da Arte.
O Nascimento de Oxum
Em O Nascimento de Oxum, Rosales se apropria de O Nascimento de Vênus, do italiano Botticelli, substituindo o ideal renascentista de beleza da deusa romana Vênus pela figura de Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade e do ouro.
A composição visual é rapidamente reconhecível, mas se diferencia profundamente da obra do Renascimento ao sacralizar as religiões de matriz africana naquele cenário. A obra apresenta a divindade sob uma nudez nada erótica. As marcas na pele da orixá também serve como contra-imaginário ao padrão do “belo” da visualidade ocidental.

A Criação de Deus
Re-interpretação do afresco de Michelangelo no teto da Capela Sistina, A Criação de Deus subverte a imagem original que representa Deus e Adão, o primeiro ser humano segundo a cultura cristã, como dois homens brancos. Na versão de B.I.T.C.H, as mulheres negras mais uma vez são retratadas no lugar das outras figuras, evidenciando novamente a sacralização ao colocar uma mulher no lugar do Deus como reivindicação do imaginário do “Pai”, criador da humanidade à sua imagem e semelhança. Há, então, uma filiação ontológica com os corpos negros femininos, antes fora da representação de Michelangelo.

A Mulher Virtuosa
Nesta obra, Rosales volta-se para o Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, símbolo máximo do antropocentrismo, do racionalismo e do humanimo. A ilustração de Da Vinci estabeleceu as proporções “perfeitas” do corpo humano padronizando. Desse modo, estabelecendo a anatomia masculina europeia como a medida universal de todas as coisas, também no campo artístico. Ao recriar esse desenho, a artista inscreve o corpo feminino negro a fim de simbolizar a corporeidade negra no centro da própria humanidade.

Passear por essas três obras revela que o projeto estético de Harmonia Rosales ultrapassa o mero pastiche figurativo em direção à imaginação contravisual. Ao ressignificar o corpo na mitologia, na religião e na medida universal da razão humana, Rosales expõe a branquitude como uma construção representacional na História da Arte, enquanto promove seu contra-imaginário. Ela retira a mulher negra da margem do imaginário ocidental e a reposiciona no epicentro simbólico.