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Arquibancadas Brancas, Gramados Negros – Millena Salles

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Na semana passada, assistindo de casa o último amistoso do Brasil antes da Copa do Mundo, me peguei tendo a seguinte conversa com o meu pai após percebermos que o estádio era composto majoritariamente por torcedores brancos:

— Caraca, só tem branco..! É…agora é só assim. — Disse ele. 

— E olha que os ingressos nem estavam tão exorbitantes dessa vez. — Eu respondi, balançando a cabeça um tanto desapontada.

— Mas ultimamente têm estado. Aí o preto nem se interessa em ver pra comprar. — Disse, um pouco alheio. — Nem lembro a última vez que eu quis ir ao Maracanã… — Ele continuou, sem tirar os olhos da televisão,  acompanhando o exato momento que Rayan, cria do Vasco da Gama, faz um gol.

— Pois é, né. E o mais louco disso tudo é que a maioria dos jogadores do Brasil nessa seleção, e também nos melhores times do mundo, são negros.

Eu concluí. E só então eu percebi o peso dessa conversa: o Brasil, além de não ser mais apaixonado por futebol como antes, agora exclui mais do que antes.

Eu poderia facilmente dissertar sobre a elitização dos estádios ao redor do país como um efeito material do pacto da branquitude (Bento, 2022), mas isso seria apenas a pontinha do iceberg. 

O racismo no futebol se dá não só nas condições de quem consegue ocupar arquibancadas atualmente, mas alcança especialmente as condições de trabalho dos atletas negros nesse esporte.

Seja na Copa do Mundo ou nos diversos campeonatos que existem Brasil afora. Seja com jogadores brasileiros ou estrangeiros. Seja em território brasileiro ou fora.

Ainda que sejam protagonistas históricos do esporte mais famoso do mundo e responsáveis diretos pelas revoluções que ocorreram no futebol, os jogadores negros — os mesmos que frequentemente são disputados para compor as maiores equipes do planeta — lidam com o contraste da discriminação racial que persiste na nossa sociedade desde a colonização.

Pelé, Garrincha, Vampeta, Kylian Mbappé, Sadio Mané, Formiga, Ousmane Dembélé…em diferentes épocas, a mesma realidade. Realidade essa que acomete a saúde mental desses profissionais e a representatividade que as nossas crianças buscam através do esporte. 

Pergunto-me, honestamente, se à longo prazo nossas crianças negras ainda se enxergarão nesse esporte. Ou se ao menos terão o interesse de assistir ao vivo aquilo que já foi um dos maiores símbolos nacionais.

Digo já foi, pois talvez o símbolo agora seja outro — tendo em vista que ultimamente, mais recorrente do que um jogo cativante da seleção brasileira, tem sido os casos incessantes de racismo contra jogadores como Vini Jr (inegavelmente um dos principais alvos desse crime na atualidade).

O Brasil é frequentemente chamado de país do futebol. Contudo, a principal pergunta que fica, e a qual infelizmente eu não tenho resposta, é a seguinte: Diante da elitização dos estádios e do racismo enfrentado por atletas negros ao redor do mundo, será que o futebol continua sendo um espaço para todos no país? 

Fica a reflexão.

BIBLIOGRAFIA:

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

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