nossas publicações

 A fotografia como resistência negra: A construção da memória e arquivo. – Mariana Oliveira

A música que canta a história Uma análise de “Canto das Três Raças” - Mariana Oliveira (3)

O que acontece quando decidimos como queremos ser lembrados? Na nossa cultura, cultivamos o costume de guardar uma caixa cheia de álbuns e fotografias da nossa vida e da nossa família. Isso nada mais é do que um ato de preservação de toda uma história; já que o direito à memória foi conquistado, não fornecido. Historicamente, o controle do que merecia ser registrado e lembrado estava nas mãos de estruturas hegemônicas, que usavam a fotografia como instrumento para a manutenção do racismo e para a desumanização do corpo negro.

Um exemplo claro dessa prática foi o caso da Expedição Thayer (1865-1866) e dos álbuns antropométricos, nos quais centenas de pessoas escravizadas e libertas no Rio de Janeiro e em Manaus foram fotografadas com o intuito de comprovar teses poligenistas, que é a crença de que pessoas brancas, negras e indígenas teriam origens diferentes, para embasar as hierarquias raciais da época. Também no final do século XIX, médicos e criminalistas, como Raimundo Nina Rodrigues, no Maranhão, usaram a fotografia antropométrica em asilos, prisões e hospitais. A câmera servia para associar traços físicos e a cor da pele à “predisposição ao crime”, à “degeneração” ou à “vadiagem”, criando um arquivo visual que criminalizava a população negra recém-saída da abolição.

O arquivo e a memória negra estiveram por muitos anos sob esse olhar racista. Contudo, quando fotógrafos negros tomam a câmera para si, temos como resultado a formação de uma fotografia não só estética, mas política: a fotografia negra se torna uma tecnologia de sobrevivência, reparação e contramemória. Com o surgimento de fotógrafos e fotógrafas negras, as próprias famílias e comunidades passam a ser detentoras de suas imagens, promovendo uma mudança de perspectiva. A construção do arquivo fotográfico negro torna-se, assim, um ato de soberania e um território de reexistência.

Vejamos Januário Garcia: fotógrafo, publicitário e ativista, cujo olhar marcado por sua negritude produziu imagens em que pessoas negras eram os verdadeiros protagonistas. Nas décadas de 1970 e 1980, Januário documentou a reorganização do Movimento Negro no Brasil. Ele fotografou manifestações contra o racismo, encontros de lideranças como Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, reuniões em terreiros e a articulação política que resultou na Constituição de 1988. Seu arquivo fotográfico foi constituído com zelo pela história do povo negro e serve até hoje como uma grande referência.

Nesse mesmo cenario de preservação e pesquisa, o Projeto Olhos Negros se tornou uma das maiores referências no estudo da fotografia negra brasileira. O projeto conecta o passado, o presente e o futuro do nosso acervo visual, nos lembrando que pensar a imagem exige pesquisa contínua e compromisso com a memória, sempre reafirmando que investigar nossas fotografias é indispensável para reparação para a história negra. 

A memória passa, então, a ser construída a partir de uma nova perspectiva, trazendo ao foco a imensidão do que o povo negro é: a fotografia passou a representar saberes, lutas, beleza e cultura. Isso permite que as pessoas acessem o passado negro sob outra ótica, preenchendo os vazios que muitas vezes foram intencionalmente criados pelas estruturas de poder. Essa importância também se faz presente nas fotografias íntimas, nas fotos de família e nos álbuns caseiros, nos quais o afeto e o amor são preservados a cada imagem.

Cada fotografia doméstica carrega um poder político enorme, pois representa a resistência em uma sociedade que negou por anos o direito à formação de um arquivo digno. As câmeras e os álbuns devem ser manuseados por aqueles que cuidam do legado dos que vieram antes e que se importam com as narrativas que serão contempladas por aqueles que virão depois. Por isso, a construção da memória e do arquivo pela fotografia negra consiste em transformar a câmera de instrumento de controle em ferramenta de libertação. A fotografia negra prova que as imagens não são apenas um registro estático do passado, mas o registro de uma história em constante movimento.

Fontes:

Artigo do Marcos Ferreira Josephino: JOSEPHINO, Marcos Ferreira. Louis Agassiz: ciência, fotografia e raça nos trópicos. Passagens: Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica, Niterói, v. 9, n. 3, p. 504-521, set./dez. 2017.

Artigo do Marcos Chor Maio: MAIO, Marcos Chor. A medicina de Nina Rodrigues: análise de uma trajetória científica. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 226-237, abr./jun. 1995.

Website do Januário Garcia: INSTITUTO JANUÁRIO GARCIA. Acervo Januário Garcia. Disponível em: https://www.januariogarcia.com.br/. Acesso em: 05 out. 2026.

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email