Vênus: a deusa romana associada ao charme, ao encanto, ao desejo, à fertilidade, à feminilidade.
Na cultura grega (Afrodite, nascida da espuma do mar a partir do sexo do titã Urano), ela está intimamente ligada ao amor romântico, à luxúria e ao ideário da beleza (pensemos na emblemática representação pictórica O Nascimento de Vênus, de Boticelli).
Para além desses sentidos habituais, o nome da deusa também carrega marcas históricas que remontam ao período da escravização do povo negro no Atlântico. Encontrado nos livros de bordo (Hartman, 2018), “Vênus” fora usado pelos capitães a fim de nomear meninas e mulheres negras cativas, escondendo de maneira intencional as identidades delas. Ainda, foi a alcunha dada à Sarah “Saartjie” Baartman, uma mulher negra exibida nos freak shows na Europa do século XIX, cujo corpo sofreu com a hiperssexualização e a exotização do olhar eurobranco.
O objetivo deste texto é refletir sobre a relação entre Vênus e as mulheres negras no imaginário contemporâneo. Para tanto, retomamos as contribuições de Saidiya Hartman no ensaio “Vênus em Dois Atos” (2018), tendo por interesse gestos recentes que recuperam a figura da Vênus Negra como forma de celebração da ancestralidade e da resistência das mulheres negras.
Invenções da Vênus Negra: entre Baartman e Hartman
Sarah “Saartjie” Baartman (1789-1815), mulher negra do povo khoisan, recebeu o nome de “Vênus Hotentote” quando foi levada à Europa, suspotamente sob promessas de dinheiro e fama pelo cirurgião inglês William Dunlop e pelo patrão Hendrik Cesars, como uma atração de circos e zoológicos humanos em Londres e em Paris. Enjaulada e com uma coleira no pescoço, Baartman teve seu corpo nu exposto, causando fascínio de multidões por conta de sua condição física: nádegas e coxas protuberantes decorrentes de acúmulo de gordura.

O nome “Vênus Hotetonte” era duplamente problemático, pois objetificava seu corpo numa referência a estátua Vênus Calipígia, chamada “Vênus das belas nádegas”, enquanto trazia o termo pejorativo da colonização holandesa utilizada para descrever o povos africanos, principalmente os khoisans (que viviam no território hoje chamado de África do Sul).
Mesmo depois de morta, em decorrência de doença inflamatória indeterminada, o corpo de Sarah foi utilizado pelo anatomista francês Georges Cuvier, a fim de obter o esqueleto e moldes de gesso dos membros e órgãos que futuramente seriam expostos no Musée de l’Homme até 2002, quando o presidente Nelson Mandela pediu o retorno dos restos mortais para a África do Sul.
Quase duzentos anos depois, Vênus retornaria atrelado às mulheres negras. Dessa vez, nos arquivos do Atlântico. Em 2008, no ensaio “Vênus em Dois Atos”, a pesquisadora e historiadora norte-americana Saidiya Hartman encontra dados sobre mulheres cativas nos diários de bordo, nos livros de contabilidade e nos arquivos burocráticos escravistas.
Hartman percebe que “Vênus” era um nome padrão utilizado pelos capitães para identificar meninas e mulheres traficadas. A autora analisa dois casos envolvendo o nome: o de uma jovem de 14 anos encontrada morta no porão do navio Recovery e de uma jovem de 16 anos assassinada a bordo por um capitão que tentou estuprá-la.
Ao constatar que pouco se sabe a respeito das experiências e subjetividades além de toda a violência no registro do arquivo, Hartman empreende a fabulação crítica, uma proposta metodológica de pesquisa em diálogo com a escrita criativa, a fim de questionar o jogo de invisibilização da mulher negra nos discursos dominantes da História.
Na falta de relatos das mulheres tornadas prisioneiras, Saidiya Hartman escolhe dar às Vênus uma narrativa sem choro e sem luto, imaginando a vida dela apesar da experiência violenta. Embora tais episódios não possam ser indissociados, a intenção teórica e ética é a de imaginar o que não foi contado nos arquivos: seus nomes, seus afetos e suas existências. Elas, e tantas outras mulheres negras, se tornam personagens reais nos trabalhos de Hartman.
Do “Nascimento de Oshun” à “Vénus Noir”: o (contra) imaginário contemporâneo
Seguindo o gesto de Saidiya Hartman na leitura crítica do jogo de poder no qual as Vênus Negras estão inseridas, pensamos em dois exemplos nos operadores discursivos estéticos na contemporaneidade, sobretudo o imaginário.

Em O Nascimento de Oshun (2017), a artista afro-cubana Harmonia Rosales re-interpreta a icônica O Nascimento de Vênus (1485–1486), do italiano Botticelli, substituindo o ideal renascentista de Vênus pela beleza ancestral de Oxum.
A composição é rapidamente reconhecível (o cenário, a mulher sobre a concha no centro, as poses das figuras representadas), mas se diferencia profundamente da obra renascentista. Na pintura de Boticelli, Vênus é uma mulher de pele pálida, loira, que cobre o sexo com o cabelo; está cercada por uma ninfa branca e pelo deus Zéfiro.
A Vênus de Rosales é Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade e do ouro; é uma mulher negra retinta, cujas marcas douradas na pele da orixá também servem como contra-imaginário ao padrão do “belo”/”liso” da visualidade ocidental.
Esse mesmo gesto de contra-imaginário é operado de forma sonora e corporal pela cantora Urias em “Vénus Noir”, quarta faixa do álbum CARRANCA (2025), indicado recentemente ao Grammy Latino 2027.
A canção (acima), cujo título remete diretamente à memória de Sarah Baartman, desloca a Vênus do lugar de objeto para o de sujeito. A letra trabalha três temas: a fama/ prisão, a resistência e a afirmação da identidade negra feminina. O eu-lírico rejeita virar um símbolo de exploração, de exotização e espetacularização, decidindo brilhar por conta própria enquanto celebra sua força como mulher negra e trans.
Dessa maneira, Vénus Noir realiza o que Hartman propôs como “ética da representação histórica” por transformar dor em força, prisão em liberdade, silenciamento em voz. Na performance de Urias, a Vênus Negra deixa de ser enjaulada e catalogada de maneira arbitrária. A Vênus Negra, finalmente, se torna invenção de si.
Referências
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160110_mulher_circo_africa_lab
https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/27640/pdf