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O Renascimento do Harlem: cultura negra, cultura popular – Samuel Cotta

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Na História da cultura ocidental, o Renascimento foi um movimento artístico, filosófico e científico marcado principalmente pelo centramento de um ser humano dito “universal”. Surgido na Europa, entre os séculos XIV e XVI, o Renascimento também buscou a renovação do pensamento racionalista, a ruptura com os dogmas religiosos e a redescoberta do clássico da antiguidade greco-romana, na arte e no pensamento. 

Quatrocentos anos depois, do outro lado do Atlântico (mais especificamente no bairro do Harlem, EUA), aconteceria um movimento de renovação diferente; dessa vez, tendo por centro obras e personalidades da negritude estadunidense, como a cantora Bessie Smith, a “Imperatriz do Jazz”. Quatrocentos anos depois, surgiria o Renascimento do Harlem (Harlem Renaissance).

Também chamado de “Renascimento Negro” – Black Renaissance e de “Novo Movimento Negro” – New Black Movimento, essa afluência cultural surgiu nos Estados Unidos da década de 1920, precisamente no bairro nova-iorquino Harlem, notório pela presença da comunidade negra após o período da Grande Migração (isto é, a saída de milhõss de ex-escravizados da segregação no Sul rural do país, rumo aos estados do Norte, como a própria Nova York). Nesta migração, ideias, costumes e manifestações culturais, a exemplo da música blues, puderam chegar a lugares inimagináveis e futuramente ocupar o mainstream.

Algumas das estrelas mais proeminentes da música jazz da época são Bessie Smith, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Billie Holiday e Duke Ellington. Esses nomes são reverenciados até o período contemporâneo, sobretudo em cinebiografias. O filme “Bessie” (HBO, 2015, dir. Dee Rees) mostra a jornada da personagem homônima, interpretada por Queen Latifah, em meio a efervescência cultural dos night clubs e performances típicas do Harlem. 

Bessie Smith.
Queen Latifah como Bessie Smith em “Bessie” (HBO, 2015, dir. Dee Rees).

Além de músicos, o trabalho de professores, pesquisadores, escritores e artistas visuais simbolizavam a principal proposta do Renascimento: apresentar vivências negras sob o signo do orgulho, da modernidade e da resistência, fugindo das caricaturas e estigmas raciais (submissão, animalização e infantilização).

São contemporâneos do Renascimento do Harlem os trabalhos do filósofo Alain Locke, do sociólogo e historiador W.E.B Du Bois, da antropóloga Zora Neale Anderson e das escritoras Jessie Redmon Fauset, Nella Larson e Georgia Douglas Johnson. Já no campo das artes visuais, o pintor Aaron Douglas se destacou por representar em suas obras a vida noturna, o trabalho, a religiosidade e a musicalidade  através de silhuetas e formas geométricas anônimas, enfocando a coletividade negra.

Aaron Douglas. Charleston. 1928.  gouache, 37 x 24 cm.

A potência do Renascimento do Harlem tem sido cada vez mais revisitada e estudada hoje, tanto no âmbito acadêmico quanto na cultura pop. Reverenciar esse movimento é uma forma significativa de celebrar a identidade afro-estadunidense, a ruptura com estereótipos racistas e o orgulho racial na história, na política, na estética e na cultura negra.

Referências 

DOUGLAS, AARON. Charleston. 1928. gouache, 37 x 24 cm. Em:<https://www.wikiart.org/pt/aaron-douglas/charleston-1928>.

IMDB. Em: <<https://www.imdb.com/pt/title/tt3704352/mediaviewer/rm3730960640/?ref_=tt_ph_1>.

NASCIMENTO NGANGA, João Gabriel . Harlem Renaissance: “Morrer para nascer e escrever a partir de si”. Revista História: Debates e Tendências, v. 21, p. 117-129, 2021.

SYNCOPATEDTIMES. Em:<https://syncopatedtimes.com/bessie-smith-profiles-in-jazz/>.

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