Nesta semana do dia das crianças, o LIDD kids entrará em ação trazendo dicas de conteúdos para a criançada. Hoje vamos falar sobre o projeto Pretinhas Leitoras, uma invenção das irmãs gêmeas Helena e Duda. Apelidadas carinhosamente por sua mãe, Elen Ferreira e sua avó, Eva Soares, de pretinhas, se encantaram pela leitura desde muito cedo. Nascidas no Morro da Providência, no Centro do Rio de Janeiro, idealizaram o projeto a partir de conversas entre crianças e seus responsáveis.
Com debates no canal do Youtube ou no Instagram ou em rodas de leitura que promovem para reunir mais crianças, jovens e contadores de histórias, as meninas buscam construir uma educação afroreferenciada, através de leituras pluriversais com foco no protagonismo infanto-juvenil, feminino, negro e indígena.
Desde 2018, as pretinhas leitoras reuniram milhares de crianças e adolescentes em suas rodas literárias, lançaram o livro Fa-vê-las com participação de cem autores e autoras mirins, em 2021, e atualmente estão no comando do quadro Encontro com as Letrinhas, na TV Globo, no Encontro com Patrícia Poeta.
Conheça as redes dessa dupla incrível e fique por dentro de tudo o que rola por lá:
Hoje estamos retomando as atividades do LIDD depois de um período de férias e podemos dizer que voltamos com tudo!
Hoje no nosso encontro de leitura semanal a Giselle Barreto apresentou o livro A vida não é útil do líder indígena e pensador, Ailton Krenak. Dividido em cinco capítulos – Dinheiro não se come, Sonhos para adiar o fim do mundo, A máquina de fazer coisas, O amanhã não está à venda e A vida não é útil – o livro de Krenak é um conjunto de entrevistas e palestras que perpassam temas como a pandemia, o capitalismo e a relação dos seres com a natureza.
O autor nos fala sobre como os valores do capitalismo impactam o meio ambiente. E alerta que a mentalidade utilitarista do capitalismo, além da desigualdade social, causa sérios danos ecológicos. Giselle trouxe várias contribuições acerca da obra e ressalta um ponto marcante: Krenak não fala apenas dos povos indígenas, mas de toda a vida que se abandona ao longo do tempo em nome do progresso, por exemplo, com o popular uso de cosméticos e roupas feitas com origem animal.
Para concluir com uma boa reflexão, deixamos aqui uma história antiga do povo Krenak que retrata a relação da humanidade com o meio ambiente:
“Tem uma história antiga do povo Krenak que diz que o Criador deixou uma humanidade aqui na Terra e foi para algum outro lugar do cosmos. Um dia ele se lembrou de nós e disse: “Ah, eu deixei minhas criaturas lá na Terra, preciso ver o que eles se tornaram”. Mas, enquanto fazia esse movimento incrível de vir até aqui nos ver, ele pensou: “E se eles tiverem se tornado algo pior do que eu posso conceber? O melhor seria não ter um encontro pessoal com eles. Vou fazer o seguinte: vou me transformar em uma outra criatura para ver as minhas criaturas”. Ele se transformou num tamanduá e saiu pela campina. Em certo momento, um grupo de caçadores, munidos de bordunas e laços, se encostaram numa paisagem, avançaram sobre ele, o prenderam e levaram pro acampamento com a intenção óbvia de comê-lo. Duas crianças gêmeas, que observavam a cena, evitaram que ele fosse levado para a fogueira. Ele então se revelou para os meninos, que, antes que os adultos descobrissem, acobertaram a sua fuga. Do alto de uma colina, os meninos gritaram: “Avô, o que você achou da gente, das suas criaturas?”. E Deus respondeu: “Mais ou menos”.
Hellen Freitas
Graduanda em Psicologia (IP/UFRJ) e Bolsista do Laboratório de Identidades Digitais e Diversidade.
Hoje é dia da nossa LIDDICA, falaremos por aqui sobre uma das maiores autoras do nosso País e certamente você já ouviu falar sobre ela: Carolina Maria de Jesus.
Nascida em 14 de março de 1914 na cidade mineira de Sacramento, passado pouco tempo desde o fim da escravização, Carolina tornou-se conhecida a partir da década de 60. No final da década de 1950, o jornalista Audálio Dantas cruzou o caminho de Carolina Maria de Jesus na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo. Depois de um breve diálogo, ele descobriu que ela, que passava a maior parte do tempo como catadora de papel e criava sozinha três filhos pequenos, era autora de inúmeros diários. Dantas realizou uma edição dos cadernos que se transformaram no livro “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”, publicado em 1960.
Desde a publicação, o livro vendeu milhões de exemplares. Apresentando trechos dos diários escritos por Carolina entre 1955 e 1960, essas páginas revelam versos sobre o seu cotidiano nascidos em meio aos encontros com a fome e dores da maternidade solo, bem como os sonhos e anseios de Carolina. Com a repercussão da estreia, o título foi traduzido para mais de quinze idiomas. O sucesso de vendas possibilitou sua saída da favela do Canindé e a hostilidade dos moradores daquela comunidade, que se sentiram expostos na obra então recém-lançada.
FSH
Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus
Com o segundo livro, Casa de alvenaria, que trazia o subtítulo “diário de uma ex-favelada”, Carolina voltou, contudo, à exclusão. Os leitores da época interessavam-se mais pela escrita de Carolina quando se remetia à fome e ao desamparo. Autora ainda de Provérbios e Pedaços da fome, de 1963. Sua última obra, Diário de Bitita: um Brasil para brasileiros, seria publicada primeiro na França pela Éditions Métailié, com o título de Journal de Bitita, e no Brasil em 1986. Carolina Maria de Jesus morreu em 13 de fevereiro de 1977, e segue imortal através da sua memória celebrada por milhares de leitores atualmente.
A LIDDICA de hoje é a exposição “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros”, a nova exposição do Museu de Arte do Rio, MAR, em parceria com o Instituto Moreira Salles, responsável desde 2016 pelo acervo da autora. Inaugurada no último dia 24 de Junho, a mostra apresenta a trajetória da artista que ultrapassou a margem para se tornar uma das escritoras mais importantes do nosso País. “Carolina tornou-se um símbolo de resistência para os movimentos negros contemporâneos, referência para vertentes do feminismo negro, para a literatura de autoria negra e periférica”, afirma a curadoria. Com fotografias, manuscritos, vídeos e material documental, além de diversas obras de arte contemporânea que dialogam com a vida e obra de Carolina, a mostra é uma super oportunidade de celebrar seu legado e reforçar a importância do seu trabalho que denuncia a realidade de muitos brasileiros.
Tomaz Silva/ Agência Brasil
Com curadoria do antropólogo Helio Menezes, da historiadora Raquel Barreto e do assistente de curadoria Phelipe Rezende, a exposição, que vai ocupar duas salas do pavilhão do museu, está aberta até dia 26 de novembro com funcionamento de terça a domingo, de 11h a 18h. Vale a pena ir e conhecer mais sobre esse importante nome da nossa literatura brasileira!
Capa do periódico do Movimento Negro Unificado, de 1991.
Em 1991 o Movimento Negro Unificado publicou, em seu periódico, uma campanha que marcou a história do movimento negro. Com o beijo entre um homem e uma mulher negra, destaca o verso do poema “Bandeira” de Lande Onawale: “Reaja à Violência Racial: beije sua preta em praça pública”. Essa capa se tornou um apelo à importância da afetividade na luta antirracista, e mais que isso, uma celebração a vida e ao amor entre pessoas negras como manifestação e resistência política. Em entrevista, Onawale fala sobre a repercussão da capa que não pretendia ser um ato de reivindicação, mas tornou-se diante do discurso racista que sustenta a violência policial e “diz a todo tempo que não somos capazes e merecedores desse amor mútuo – de nenhum amor, na verdade”, considera o poeta.
A autora bell hooks, dedicou grande parte de suas obras para escrever sobre afeto, solidão e amor, sobretudo pensando a realidade da população negra. hooks define amor como um conjunto de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade e confiança. Em seu texto Vivendo de amor (2010), a autora fala sobre o impacto da escravização na afetividade: “Depoimentos de escravos revelam que sua sobrevivência estava muitas vezes determinada por sua capacidade de reprimir as emoções”. Milhares de pessoas viram (e, infelizmente, ainda veem) suas famílias serem rompidas pela brutalidade de um sistema de desumanização e exploração do corpo negro. Relacionamentos amorosos não eram alternativas em tempos de dominação, como seria possível prever quanto tempo aquelas pessoas estariam juntas?
Existe um plano sociopolítico permeado pelo racismo para subjetivar o corpo negro de forma que ele permaneça às margens da sociedade e determinados estereótipos sejam conferidos a ele, como a hipersexualização, virilidade e inferioridade intelectual. A desvalorização dos fenótipos e da estética da população negra também é algo que impacta a autoestima e a construção de identidade. Sendo assim, criar espaços sem que haja representação e a possibilidade de identificação de pessoas negras, é negar pertencimento e negar, mais uma vez, a humanidade dessas pessoas. Por isso, em um país que morre 1 jovem negro a cada 23 minutos, afirmar o amor é um ato político.
Nesse sentido, hooks afirma: “Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente”. O amor que bell hooks descreve ultrapassa o amor romântico e ocidental. É o amor em diversos contextos, na família, entre amigos, casais, para consigo, em comunidade. O amor impulsiona a acolher o passado, transformar o presente e sonhar o futuro. É força que direciona um movimento de resgate de si e do outro. O amor é cura.
Para hoje: Beije, abrace, ame suas pretas, pretos e pretes em público.
Hoje foi de leitura semanal no LIDD, a nossa última reunião do semestre. Hoje a Rosane Romão, integrante do LIDD, apresentou um capítulo, em desenvolvimento, de sua tese de doutorado: Romão: Trajetória, memória e militância negra na comunicação. Neste capítulo, Rosane fala sobre a vida de Marcos Romão que foi professor, sociólogo, jornalista, militante dos direitos humanos e seu irmão. Além disso, em diálogo com os pensamentos de Conceição Evaristo e Grada Kilomba, Rosane costura memórias como parte do processo de lançar luz a tantos movimentos feitos por Romão como reivindicação por voz em contextos de silenciamento. Movimentos que visavam a amplificação das narrativas negras em situação de marginalização.
Já estamos ansiosos para ler mais deste trabalho incrível!
Hellen Freitas
Graduanda em Psicologia (IP/UFRJ) e Bolsista do Laboratório de Identidades Digitais e Diversidade.
A liddica de hoje é em dose dupla. Hoje nossa indicação são dois livros de poesia, escritos por duas mulheres negras incríveis!!!
O primeiro livro é “Tudo nela é de se amar: A pele que habito e outros poemas sobre a jornada da mulher negra” de Luciene Nascimento. Luciene é poeta, advogada e escritora, vencedora do Prêmio Dandara e Zumbi dos Palmares na categoria Comunicação e atualmente é vice-presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB- Barra Mansa-RJ. Com uma sutileza ímpar, a poeta tece palavras para contar histórias, traduzir dores e afetos vividos por mulheres negras. De forma madura e sensível convida o leitor a refletir sobre identidade, memória, ancestralidade, auto estima, saúde mental e tantos outros temas que perpassam a experiência que é uma mulher habitar um corpo preto.
No prefácio do livro, o ator Lázaro Ramos diz:
“Luciene Nascimento é uma explosão em forma de poesia. Foi exatamente o que percebi quando, pela primeira vez, tive contato com a sua forma de compreender a identidade. Com especial talento, Luciene como que recolhe palavras que andam soltas por aí e as ressignifica, explicando, de forma terna e contundente, toda uma existência.”
Ainda falando sobre mulheres incríveis, o segundo livro é “Jamais peço desculpas por me derramar: Poemas de temporal e mansidão” de Ryane Leão. Ryane é poeta e professora cuiabana. Publica seus escritos na página Onde jazz meu coração e recita seus poemas nos saraus e slams do Brasil. Seu trabalho é pautado na resistência das mulheres e focado na luta e no fortalecimento pela arte e pela educação. Neste livro, publicado em 2019, somos presenteadas com palavras, palavras que provocam dor e conforto, incomodam e emocionam. Longe da mulher-maravilha imposta às mulheres negras, Ryane se permite ser inteira e compartilha conosco a experiência de, apesar de forte, também sucumbir. É costurando dores, conflitos, resistência e coragem que a poeta nos toca com sua obra.
Hellen Freitas
Graduanda em Psicologia (IP/UFRJ) e Bolsista do Laboratório de Identidades Digitais e Diversidade.