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Grupo de estudos: “Descansar é resistir – um manifesto” – Tricia Hersey

Ontem (02) retornamos às nossas atividades com um encontro super potente do nosso grupo de estudos. Debatemos sobre o livro “Descansar é resistir – manifesto” escrito pela artista Tricia Hersey, autodenominada como a Bispa do Cochilo. Tricia é fundadora do “Ministério do Cochilo”, uma organização que estuda o descanso como forma de resistência e promove experiências de cochilos coletivos a partir de oficinas imersivas. A apresentação do texto foi feita pela professora Fernanda Carrera.

A escrita de Tricia Hersey possui influências da teologia, do afrofuturismo e do ativismo antirracista e anticapitalista, mas é na sua ancestralidade e nas vivências da sua família no contexto estadunidense que as palavras da autora encontram materialidade. A partir do corpo da sua ancestralidade, exploradas por exaustivas atividades laborais, ela pensa que a libertação desse paradigma está na recusa da lógica capitalista de produtividade como sinônimo de utilidade. Nesse sentido, Tricia reivindica para si o sonho, a alegria e possibilidades de descanso. 

Neste livro somos convidadas a uma reconexão com o nosso próprio tempo. Ao passo em que a lógica do capital afirma que “tempo é dinheiro”, precisamos reconhecer os limites dos nossos corpos e respeitar o nosso tempo. Estamos atravessando um momento em que as máquinas estão substituindo o trabalho de pessoas reais, competimos com a inteligência artificial e sua constante evolução. Por isso, descansar é também reconhecer a nossa humanidade. 

No encontro do nosso grupo de estudos refletimos também sobre a produtividade excessiva como uma manifestação do trauma reflexo da escassez e das violações psicossociais, os desafios para o descanso após a pandemia, as dificuldades que os trabalhadores autônomos encontram frente à aceleração do mercado de trabalho e a romantização das práticas de descanso. 

Podemos dizer que iniciamos muito bem esse período, com muitas trocas e reflexões importantes. Abaixo você encontra algumas sugestões do grupo para seguirmos refletindo sobre esse tema: 

Livros:

Performances do tempo espiralar: Poéticas do corpo-tela – Leda Maria Martins 

A vida não é útil – Ailton Krenak 

Cosmopoéticas do refúgio – Dénètem Touam Bona

Entrevista: 

Taís Araújo conta sobre dificuldade em dizer “Não” para o trabalho – Entrevista para videocast do O Globo: Entrevista na íntegra, disponível no Youtube

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LIDD NA 13ª EDIÇÃO DA SiAC

Na última semana do mês passado aconteceu a 13ª edição da SiAC, a Semana de Integração Acadêmica e Cienfífica da UFRJ. O evento ocorreu entre o dia 25 à 29 de novembro, e o  LIDD marcou presença através das bolsistas Hellen Freitas e Millena Salles, e de Ana Luísa Costa, mestranda do PPRER pelo CEFET/RJ e integrante do nosso laboratório de pesquisa.

Dando continuidade à pesquisa sobre as problemáticas da construção identitária de mulheres lésbicas negras, Hellen Freitas fala sobre a interseccionalidade vivida por esse grupo, abarcando também a discussão da performance de gênero em mulheres desfeminilizadas. Existe uma coexistência de diferentes fatores de modo que estas nunca serão apenas mulheres ou apenas negras ou apenas lésbicas, como aponta Ariana Mara Silva (2017). Sendo assim, a partir da análise de três perfis de influencers no instagram, a pesquisa aponta para estratégias de resistência na comunidade lésbica negra, frente às armadilhas da identidade.

Seguindo no debate sobre racismo de fãs e os diversos obstáculos que mulheres negras enfrentam enquanto inseridas na indústria musical, Millena Salles abordou sobre o impacto dos dispositivos de racialidade como um instrumento de manutenção para moldar a autopercepção de pessoas negras e sustentar a ideia de raça. Além disso, a aluna de Publicidade e Propaganda discutiu a ausência de fiscalização nas discriminações raciais reproduzidas na internet e também abordou temas como interseccionalidade e o conceito “Racismo Recreativo”, de Adilson Moreira. 

Ana Luísa Costa, em seu trabalho “A beleza como produção de afetos entre mulheres negras no Brasil”, fala sobre como o cuidado estético funciona como um meio para o cultivo do afeto entre mulheres negras no Brasil. Para isso, analisando o histórico dessas mulheres nesse território, a pesquisa busca inicialmente apresentar um breve panorama social sobre como historicamente elas foram inseridas na sociedade brasileira. O trabalho transita pelo estudo da relevância das representações, que alinhadas aos discursos de poder, interferem no processo de construção de identidade racial e, consequentemente, na valorização da negritude e seus símbolos.

Por aqui, nós achamos que o LIDD foi super bem representado nesta edição da SiAC! E vocês?

Fiquem atentos(as) às nossas próximas postagens no site e em nossas redes sociais. Todos os artigos serão divulgados por aqui assim que forem publicados. 📚🤩

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LIDDICA: CAJU – LINIKER

“O lugar mais próspero que eu quero chegar na minha vida, porque eu mereço e eu quero alcançar tudo o que eu escrevi ali”. É assim que a cantora Liniker descreve seu mais recente projeto, o aclamadíssimo álbum musical CAJU.

Lançado em agosto deste ano, CAJU percorre, em suas 14 faixas autorais, as múltiplas camadas de Liniker como artista e como mulher. O disco é uma narrativa da cantora acerca de si mesma, refletindo suas vivências, amores, dores e desafios. CAJU é, em outras palavras, um sopro do medo. Um processo de expansão do íntimo de Liniker para o mundo, desta vez despida de qualquer receio de sua grandiosidade.

Com mais de 1 hora de músicas que exploram seu empoderamento e a vontade de se permitir à tudo – inclusive o nada –, o álbum une referências do pop, do samba, do soul e de outros gêneros – versatilidade já reconhecida nas obras  de Liniker, assim como as sonoridades em suas canções, que trazem à tona uma profundidade emocional única.

Suas letras evocam sentimentos variados e texturas intensas, reverberando as experiências da cantora em seu caminho de amadurecimento e ressignificação de si mesma. Para Liniker, CAJU é um álbum que traduz em arte os momentos de sua vida e os seus sonhos, construindo uma ponte entre sua trajetória pessoal e sua expressão musical. Contando com participação de artistas como Lulu Santos, BaianaSystem, ANAVITÓRIA e Pabllo Vittar ao longo das faixas, o novo disco solidifica a cantora de 29 anos como uma voz potente e singular na música brasileira. 

Dito isso, coloca aí CAJU no repeat e conta aqui pra gente qual das músicas tocou mais fundo em você! 🎶

E não se esqueça: Se curtiu essa liddica, acompanhe-nos aqui no site e em nossas redes sociais para saber muuuito mais!💛

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LIDDICA – Famílias inter-raciais: tensões entre cor e amor

Hoje é dia de LIDDICA!!!! 

A dica de hoje é o livro “Famílias inter-raciais: tensões entre cor e amor”, de Lia Vainer Schucman. Este livro é fruto da pesquisa de pós-doutorado da autora que propõe a refletir sobre as dinâmicas da interação entre os membros brancos e negros que compõem uma família inter-racial. Em um país onde um terço das relações matrimoniais se dá entre pessoas que se autoclassificam como sendo de raças diferentes, Lia questiona como o amor e a afetividade podem coexistir com a violência e a discriminação de maneira sutil ou explícita.  

“Eu tinha uma hipótese que, na verdade, a família era um lugar de conforto, que ajudava as pessoas a combaterem o racismo encontrado no mundo. Achava que o primeiro encontro radical com o racismo era na escola. No entanto, essa pesquisa provou que é na família”, diz Lia em entrevista para a UOL. 

O privilégio branco se manifesta de forma simbólica e concreta. Crianças negras recebem menos apoio, menos paciência, menos investimentos e menos carinho. A frustração e as humilhações durante as reprimendas estão sempre suscetíveis a centralizar a questão racial. Outro aspecto que se observa é a negação da identidade negra da criança, como explica Lia: 

“Na maioria das vezes, a criança negra é querida por seus familiares. No entanto, o que acontece é que, para demonstrar esse amor, os familiares frequentemente ignoram sua condição de negro.”

É necessário “domar o cabelo ruim”, é preciso clarear essa criança, alterar o formato do nariz, é preciso afirmar que ela não é tão negra assim, mas sim moreninha, sarará, etc. Existe uma limitação dos afetos que não escapa às hierarquias geradas pela estrutura racista. A família não está isolada do mundo, da linguagem, dos símbolos, das imagens, ou das dinâmicas de humilhação e rejeição que são expressas pelo estigma social. Na escola, nos desenhos, nas brincadeiras, nos romances e no interior das famílias ser negro significa correr o risco de ser inferiorizado, a partir da construção social em torno da racialidade. Nesse sentido, a obra aumenta o diálogo sobre essa temática, muitas vezes distorcida pelo discurso da “palmitagem”. Vale a pena conhecer o trabalho de Lia Schucman e refletir. 

Referências

RFI. Racismo está presente também em famílias inter-raciais, mostra pesquisadora brasileira. UOL, 13 mar. 2023. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2023/03/13/racismo-esta-presente-tambem-em-familias-inter-raciais-mostra-pesquisadora-brasileira.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 29 out. 2024.

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LIDDICA – Crônicas indígenas para rir e refletir na escola

Hoje é dia de LIDD Kids por aqui! 

E finalizando o mês das crianças, hoje trouxemos uma super dica de livro para ler e refletir com a criançada: Crônicas indígenas para rir e refletir na escola, de Daniel Munduruku. A partir de crônicas rápidas, o escritor e professor indígena, utiliza sua experiência para ressignificar a narrativa educacional que segue reforçando estereótipos no imaginárico social. Nesta obra, de apenas 88 páginas, Daniel promove risos enquanto estimula a consciência e o conhecimento sobre a diversidade cultural e a necessidade de reconhecer outras perspectivas além das impostas pela história colonial. 

A lei 11.645, sancionada em 2008, tem por objetivo acrescentar a obrigatoriedade do

ensino da temática indígena ao que estabelecia a lei 10.639, que já previa a exigência de se

inserirem, obrigatoriamente, conteúdos de história e cultura afro-brasileira nos currículos da

educação básica em estabelecimentos públicos ou privados. Ainda assim, o ensino sobre a história, memória e cultura indígena segue invisibilizado na sociedade. Nesse sentido, esta obra nos auxilia na busca pela valorização da literatura indígena.

“Para que servem estes pequenos textos que aqui lhes apresento? Para que possamos nos espantar com aquilo que nos parece óbvio, mas não é. Não é, porque pouco sabemos sobre essas populações. O que nos ensinaram tem a ver com a tal da história única contada por uma voz estridente que nunca nos ofereceu outras versões e por conta disso acabamos por aceitar o que nos era ensinado.” – Daniel Munduruku. 

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Identidades de resistência: a performance frente às normas

Você já ouviu falar sobre performatividade? 

Esse é um conceito interessante para compreendermos como identidades e expressões sociais são construídas e representadas. Segundo Derrida (1988), performatividade é uma forma de expressão naturalizada a partir de repetição e rupturas. No movimento de recusa ou aceite do que é estabelecido, existe a possibilidade do novo, de se reinventar de modo a contrapor as imposições sociais. Certamente você já ouviu falar sobre algumas personas da comunidade negra carioca, como o negrocria. Esta é uma forma de performance atrelada à construção da identidade racial. O negrocria recusa aos estigmas negativos que permeiam o imaginário social sobre a periferia e se apropria da estética periférica com orgulho, incorporando influências culturais do funk e do rap. 

 Obras “Tá ok” (2023), de Bruno Lyfe, e “Vivo de janeiro a janeiro, não só em dezembro” (2021), de Hebert

Para Judith Butler (2003), que faz o diálogo do conceito de performance com discussões de gênero, a performatividade relaciona-se também com a produção de efeitos, a partir da forma como alguém se apresenta ao mundo e faz com que o outro o conheça a partir do conjunto de sentidos criados na sociabilidade. Nesse sentido, performance de gênero não está relacionada à externalização do que se é, e sim à uma forma de negociação com as imposições sociais sobre determinado gênero. Na intersecção de gênero e sexualidade, a comunidade lésbica defende a possibilidade de expressar o gênero feminino recusando a expressão hegemônica do que é ser mulher, a feminilidade. A partir da coletividade, alguns movimentos sociais buscam fortalecer a identidade desfeminilizada e reafirmar a sua legitimidade a partir da estética. 

Segundo estudiosos da psicossociologia (NASCIUTTI, 1996), a sociedade influencia o indivíduo ao passo que é influenciada pelo mesmo. A subjetividade é resultado da soma das interações e conflitos do contraste psicossocial. A psicanálise, por sua vez, assume a expressão do eu como um eco do inconsciente, moldado a partir de pulsões internas, desejos e relações sociais iniciais, principalmente na primeira e segunda infância. Para Lacan (1998), o “eu” é uma construção imaginária que busca sempre o porvir do “eu” ideal e inalcançável, a partir da linguagem se expressa uma conciliação entre as duas esferas. 

Erving Goffman (2014) explica a performance social através de uma metáfora teatral, onde o indivíduo desempenha papéis sociais, como forma de contornar a forma como é lido pelo outro. Essa atuação se dá em dois espaços principais: O palco frontal e o backstage. O palco frontal é onde as pessoas se apresentam e performam de modo a se alinhar com as expectativas do outro. Já o backstage é o espaço confortável onde é possível se comportar sem grandes preocupações em ser visto e avaliado por outros olhos. 

Diante de tantos teatros sociais, em tempos onde a mídia desenha o desejável e hegemonia segue ditando a normatividade, como podemos garantir que nossa maneira de ser e estar no mundo seja uma escolha consciente e autêntica, e não uma imposição das histórias únicas que atravessam nossa vivência? Uma performance, seja de identidade racial, de gênero ou de outros marcadores sociais, exige um olhar atento para não nos perdermos em representações que nos limitam. 

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

DERRIDA, J. (1972). Contexto do acontecimento da assinatura. Limited inc. Evanston: Northwestern University Press. p. 1-23, 1988. EAGLETON, T. (2017). Esperança sem otimismo. Londres: Yale University Press.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

LACAN, Jacques.  O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 96-103.

NASCIUTTI, Jacyara C. Rochael. Reflexões sobre o espaço da psicossociologia. In: Documenta Eicos, 1996, nº 7.

MURPHY, Ann V. “Sexualidade”. In: Fenomenologia e Existencialismo. DREYFUS, 

H.L.; WRATHALL, M.A. (Orgs.). Tradução de Cecília Camargo Bartalotti e Luciana 

Pudenzi. São Paulo: Loyola, 2012, p. 441-452.