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BRAZIL CORE: Quem pode representar o Brasil? – Millena Salles

Nos últimos anos — basicamente, a partir de 2022 —, o chamado Brazil Core transformou símbolos populares brasileiros em tendência global. Chinelos, lajes, bailes, camelôs, funk, futebol, fios elétricos e estéticas da periferia — popularmente chamadas como estéticas ou estilos “de cria” — passaram a circular como referências visuais desejáveis nas redes sociais e na moda.

Mas essa valorização levanta uma questão importante: por que determinadas expressões culturais só passam a ser vistas como criativas, autênticas ou sofisticadas quando são deslocadas de seus territórios de origem?

Grande parte dos elementos associados ao Brazil Core nasce em contextos negros e periféricos, marcados por décadas de estigmatização. Durante muito tempo, essas mesmas referências foram associadas à pobreza, à marginalidade ou à falta de prestígio social.

Quando reaparecem mediadas por influenciadores, marcas ou celebridades brancas, muitas vezes passam a receber reconhecimento, admiração e espaço nos circuitos globais de consumo.

A discussão não é sobre quem pode usar ou consumir essas referências, mas sobre quem recebe visibilidade, lucro e legitimidade ao representá-las.

Por isso, falar de Brazil Core também é refletir sobre quais imagens de brasilidade são selecionadas, amplificadas e exportadas para o mundo — e quais sujeitos continuam sendo deixados à margem dessa narrativa.

Para refletir sobre essa e outras temáticas, acompanhe o LIDD nas redes sociais!💙🇧🇷

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Arquibancadas Brancas, Gramados Negros – Millena Salles

Na semana passada, assistindo de casa o último amistoso do Brasil antes da Copa do Mundo, me peguei tendo a seguinte conversa com o meu pai após percebermos que o estádio era composto majoritariamente por torcedores brancos:

— Caraca, só tem branco..! É…agora é só assim. — Disse ele. 

— E olha que os ingressos nem estavam tão exorbitantes dessa vez. — Eu respondi, balançando a cabeça um tanto desapontada.

— Mas ultimamente têm estado. Aí o preto nem se interessa em ver pra comprar. — Disse, um pouco alheio. — Nem lembro a última vez que eu quis ir ao Maracanã… — Ele continuou, sem tirar os olhos da televisão,  acompanhando o exato momento que Rayan, cria do Vasco da Gama, faz um gol.

— Pois é, né. E o mais louco disso tudo é que a maioria dos jogadores do Brasil nessa seleção, e também nos melhores times do mundo, são negros.

Eu concluí. E só então eu percebi o peso dessa conversa: o Brasil, além de não ser mais apaixonado por futebol como antes, agora exclui mais do que antes.

Eu poderia facilmente dissertar sobre a elitização dos estádios ao redor do país como um efeito material do pacto da branquitude (Bento, 2022), mas isso seria apenas a pontinha do iceberg. 

O racismo no futebol se dá não só nas condições de quem consegue ocupar arquibancadas atualmente, mas alcança especialmente as condições de trabalho dos atletas negros nesse esporte.

Seja na Copa do Mundo ou nos diversos campeonatos que existem Brasil afora. Seja com jogadores brasileiros ou estrangeiros. Seja em território brasileiro ou fora.

Ainda que sejam protagonistas históricos do esporte mais famoso do mundo e responsáveis diretos pelas revoluções que ocorreram no futebol, os jogadores negros — os mesmos que frequentemente são disputados para compor as maiores equipes do planeta — lidam com o contraste da discriminação racial que persiste na nossa sociedade desde a colonização.

Pelé, Garrincha, Vampeta, Kylian Mbappé, Sadio Mané, Formiga, Ousmane Dembélé…em diferentes épocas, a mesma realidade. Realidade essa que acomete a saúde mental desses profissionais e a representatividade que as nossas crianças buscam através do esporte. 

Pergunto-me, honestamente, se à longo prazo nossas crianças negras ainda se enxergarão nesse esporte. Ou se ao menos terão o interesse de assistir ao vivo aquilo que já foi um dos maiores símbolos nacionais.

Digo já foi, pois talvez o símbolo agora seja outro — tendo em vista que ultimamente, mais recorrente do que um jogo cativante da seleção brasileira, tem sido os casos incessantes de racismo contra jogadores como Vini Jr (inegavelmente um dos principais alvos desse crime na atualidade).

O Brasil é frequentemente chamado de país do futebol. Contudo, a principal pergunta que fica, e a qual infelizmente eu não tenho resposta, é a seguinte: Diante da elitização dos estádios e do racismo enfrentado por atletas negros ao redor do mundo, será que o futebol continua sendo um espaço para todos no país? 

Fica a reflexão.

BIBLIOGRAFIA:

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

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Maternidade Negra: O Amor em forma de Resistência – Millena Salles

Uma vez, já há algum tempo, assisti à uma cena da série “Coisa Mais Linda”, produzida pela Netflix em 2019. O corte mostrava escancaradamente a diferença entre os ideais do feminismo branco e do feminismo negro, mas não foi isso o que mais me chamou atenção.

Trazendo um breve contexto, nessa produção em questão, Maria Luíza (Maria Casadevall) e Adélia (Pathy Dejesus) são duas amigas que decidem empreender juntas nos anos 1950 no Rio de Janeiro. Na cena, as duas discutem no meio de uma deserta rua após se verem diante de um grande desafio:

Malu argumenta: “Eu ‘tava lutando pelo meu direito de trabalhar. Eu deixei o meu filho na casa da minha mãe. Eu ‘tô tentando fazer alguma coisa pela minha vida, só que tá muito difícil!” 

Adélia brada: “Chega, Malu! Lutando pelo meu direito de trabalhar..? Eu trabalho desde os 8 anos de idade! A minha avó nasceu numa senzala e é difícil. Eu trabalhei 6, 7 dias na semana. Saía de casa às 4 horas da manhã, ficava mais de 1 hora no ônibus na ida, mais de 1 hora no ônibus na volta! E chegava em casa a Conceição ‘tava dormindo! Tudo isso pra pôr um prato de comida na mesa. Isso sim, pra mim, é relevante. […] Eu sinto falta da Conceição todos os dias. Seu filho já te pediu alguma coisa que você não pode dar?”

O principal contraste da relação das duas mulheres está, para além da cor da pele, na diferença entre a realidade privilegiada de Malu — recém chegada ao Rio, vinda de São Paulo — e do cotidiano de sobrevivência experienciado por Adélia, mulher negra que vive entre os morros e vielas da cidade carioca desde que nasceu, e que antes de arriscar o pouco que tinha ao se juntar a herdeira Maria Luiza, atuava como empregada doméstica nas casas de algumas famílias ricas da capital.

Confesso que essa cena talvez tenha sido uma das primeiras que me fizeram refletir sobre como algumas vivências são diferentes dependendo da sua raça, e, principalmente, como alguns padrões continuam se repetindo incessantemente mesmo após tanto tempo.

Falando da vida real e do hoje, o Brasil tem mais de 11 milhões de mães solos em seu território. Sobretudo, mulheres negras, e que vivem predominantemente nas periferias das grandes capitais do país, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Notou alguma similaridade com  a ficção ? 

Não é incomum vermos uma grande quantidade de Adélias por aí, saindo às 4 horas da manhã todos os dias para pôr um prato de comida na mesa. Sozinhas. E mesmo que não estivessem, de alguma forma ainda estariam. 

Mulheres. Negras. Mães. Cada um desses rótulos carregam sobrecargas diferentes. E isso é somente a pontinha do iceberg.

Acredito que o que mais tenha me chamado a atenção lá atrás — quando eu tinha aproximadamente 15 anos — é como a nossa sociedade estruturalmente racista recai diretamente nelas: as mães negras. Mães que são condicionadas a limitar o seu afeto, o seu tempo e a sua maternidade aos seus próprios filhos porque precisam garantir a segurança e a sobrevivência deles, independentemente de qualquer ameaça.

Isso vem desde a época da colonização. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, não é como se as consequências disso tivessem se dissipado.

Infelizmente, o racismo continua existindo. E os sacrifícios das mães negras também. 

Até porque, mesmo durante as jornadas exaustivas de trabalho e dos diversos tipos de privação, qual filho(a) de uma mãe negra nunca ouviu as seguintes frases?

“Não esquece dos documentos antes de sair de casa.”

“Esteja sempre bem arrumado (a). Vê se não esquece de passar hidratante.”

“Pegue a nota fiscal de tudo que você comprar.”

“Não corra, principalmente se estiver de capuz que é pra não te confundirem com um bandido.”

Apesar da dor de cada frase dessas, o que fica é a gratidão por, em meio à tanto caos, essas mães ainda encontrarem maneiras de salvar os seus filhos com cuidado.

Isso, pra mim, é além de relevante: é o amor em sua forma mais pura e genuína.

Um salve à todas elas, que (r)existem para que possamos ser.

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BEMBÉ: A tradição que dominou o carnaval desse ano – Millena Salles

“Deixa girar que a rua virou Bembé

Deixa girar que a rua virou Bembé

O meu egbé faz valer o seu lugar

Laroyê, Beija-Flor, Alafiá”

Se você é alguém super antenado às redes sociais, certamente ouviu esse refrão durante o carnaval deste ano. O samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval 2026, intitulado “Bembé”, ultrapassou a marca de 1 milhão de reproduções no Spotify ainda em janeiro de 2026 (quase um mês antes dos desfile na Apoteose), consolidando-se como o mais ouvido entre as escolas do Grupo Especial. 

A faixa permanece liderando a audiência no streaming e nas paradas virais, destacando-se pela força da ancestralidade afro-brasileira com mais de 3 milhões de reproduções até a data deste texto. 

Agora, uma curiosidade? 

É um feito inédito! 

Trata-se da primeira vez que a nova geração assume um lugar tão importante no corpo da escola. “Bembé” é interpretado por Ninno e Jéssica Martins (a primeira intérprete mulher da Beija-Flor), dois jovens cantores que substituíram o célebre intérprete Neguinho da Beija-Flor, que esteve à frente da escola nos últimos 50 anos, até anunciar a sua aposentadoria após o carnaval de 2025.

Mas, a pergunta que não quer calar é: afinal, o que ou quem é esse tal de Bembé que eles cantam na música? 

Vem com a gente que o LIDD te conta!

Bom, pra início de conversa, as escolas de samba do Rio de Janeiro são umas das maiores expressões de resistência da cultura afro-brasileira. Na maioria dos desfiles, elementos do candomblé e da história negra são traduzidos em narrativas de fé, território e exaltação cultural.

No carnaval desse ano, a caçula das agremiações  especiais decidiu contar a história do Bembé do Mercado, que é o maior candomblé de rua do mundo e que acontece todo 13 de maio em Santo Amaro (BA), no Recôncavo Baiano.

Desde 2019, o Bembé é patrimônio cultural e imaterial do Brasil. Mas essa história tem início muitos anos antes, quando em 1889, no primeiro aniversário da Abolição da Escravidão no país, João de Obá, um sacerdote e estrategista, compreendeu que era preciso ocupar o espaço público e afirmar que a espiritualidade do povo negro, mesmo antes proibida, ainda estava viva.

Mesmo diante das dificuldades impostas à população negra recém liberta, essa comunidade ocupou o mercado municipal com atabaques, flores, comidas e cantos em agradecimento aos orixás. A celebração nasceu, então, como um ato político de liberdade coletiva. E, desde então, acontece de forma ininterrupta, tornando-se uma das tradições populares mais importantes para a negritude.

A palavra “Bembé” tem origem africana e significa “festa dos tambores” ou “ ritual em louvor aos orixás”. Mas, seu significado vai muito além de uma simples celebração: é a tecnologia ancestral que mantém o movimento da liberdade construída no coletivo; a memória viva e a resistência permanente de povos que construíram e constroem a cultura e a história do Brasil.

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40 anos de Axé Music: Entenda o papel fundamental dos artistas negros e nordestinos em um dos maiores fenômenos musicais do Brasil

Em 2025, o Brasil celebra os 40 anos do Axé Music — um dos movimentos musicais mais marcantes da história de todo o país!

Surgido em Salvador, na Bahia, durante o verão de 1985, o axé é muito mais do que um gênero musical: é a expressão viva de uma cultura popular, festiva, espiritualizada e resistente.

Desde o início, o axé music foi impulsionado pela criatividade e ousadia de artistas negros e nordestinos, que misturaram ritmos como o samba-reggae, o frevo, o ijexá e o merengue, criando uma batida contagiante que atravessou o país e conquistou todos os cantos do Brasil – chegando até mesmo em outras partes do mundo! Nomes como Luiz Caldas, Margareth Menezes, Carlinhos Brown e tantos outros abriram caminho para um movimento que não apenas embalou carnavais, mas também reivindicou espaço e voz para a cultura afro-baiana em larga escala.

O ritmo  também foi (e ainda é) um território de disputa e afirmação: enquanto muitos artistas brancos ascenderam nacionalmente com o gênero nos anos 1990, é impossível apagar o protagonismo negro na fundação e consolidação desse som. A trajetória do axé expõe as complexidades das relações raciais no Brasil, revelando como artistas negros muitas vezes são invisibilizados e marginalizados, mesmo sendo os pilares das estéticas, sonoridades e performances que fazem o sucesso do ritmo que domina o nordeste brasileiro.

Quarenta anos depois, o axé segue vivo nas releituras contemporâneas, na força dos blocos de rua,, nos trios elétricos e nas milhares de vozes que nunca deixaram de cantar na energia que só quem já dançou ao som de “Faraó”, “Baianidade Nagô” ou “O Canto da Cidade” conhece.

Celebrar o axé é também reconhecer a resistência e a inovação de artistas negros e nordestinos que transformaram a cultura brasileira através da música. O axé music é memória, é território e seguirá em movimento por muitos mais anos.

Ajayô, Axé Music!

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LIDDICA –  Quadrinhos do Norte que você precisa conhecer

Você já ouviu falar dos quadrinhos produzidos por artistas da região Norte do Brasil? Não? Então fica aqui com a gente porque a liddica de hoje vai te contar um pouco sobre eles!

Os HQs nortistas vêm conquistando leitores de diferentes regiões do país ao trazerem narrativas potentes e, acima de tudo, inspiradas em culturas originárias e vivências locais. Um traço marcante e característico dessas obras é a presença constante e afetiva dos idosos como personagens principais, como os avós, por exemplo.

Em meio a histórias que misturam cotidiano, ancestralidade e fantasia, esses quadrinhos nos lembram da importância das pessoas mais velhas como guardiãs de memória, cultura e sabedoria.

Por isso, a liddica traz alguns quadrinhos nortistas que você precisa conhecer. São eles:

  • Sete Cores da Amazônia – Ademar Vieira e Tieê
  • Saburo – Ricardo Ono
  • Quase Tudo São Flores – Karipola 
  • Super Vovô – Leon Sarmento 

Gostou dessas dicas? Deixe aqui o seu comentário! <3