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Entre fragmento e costura: o corpo negro nas obras de Rosana Paulino

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Colagens, transferências fotográficas, técnicas de arte têxtil, uso de objetos ancestrais e imagens de arquivo das mulheres negras escravizadas no século XIX. O estilo de Rosana Paulino tem suscitado importantes contribuições para os campos artístico e acadêmico hoje. 

Primeira mulher negra a se tornar doutora em Artes Visuais pela USP, Paulino é um dos nomes mais proeminentes quando falamos sobre a representação crítica da história do sujeito negro, partindo de imagens (majoritariamente racistas) usadas para fins “científicos e médicos”, que ganham novos contornos no debate contemporâneo.

Evidenciamos um signo em comum nas obras da artista: a presença recorrente do corpo negro dilacerado, fragmentado e atravessado pela violência colonial.

Bastidores (1997), um dos primeiros trabalhos notórios de Paulino, apresenta bordados com rostos de mulheres negras, cujos olhos e bocas são perpassados por linhas pretas. O título faz alusão à peça que firma o pano para bordar, chamado de bastidor. 

As técnicas de bordado possuem genealogia tanto nas culturas ameríndias, africanas e coloniais. Em Bastidores, Rosana se utiliza do bordado europeu (mais fino, com linhas delicadas e muito presente nas classes mais abastadas) para expressar o cenário de horror. 

Transferir os rostos de mulheres negras ao tecido permite a reflexão do observador sobre as tradições na cultura brasileira, sobre o anonimato dos rostos historicamente apagados.

“Atlântico Vermelho” (2017):

Aqui, Rosana desmembra o corpo negro numa colcha de retalhos e o coloca ao lado de ícones que remontam ao período da chegada dos portugueses ao Brasil: navios, ilustrações antropológicas e registros da escravidão, retirando os olhos e rostos das figuras representadas.

Por entre os típicos azulejos trazidos de Portugal para a arquitetura do Brasil colonial, vemos um osso humano; bordado sobre a estampa em linha vermelha, a frase “ATLÂNTICO VERMELHO” é complementada pelas linhas, como sangue jorrado, que escapam dos azulejos. 

Uma maneira poética de materializar um rio perene de sangue ancestral dos escravizados, algo também encontrado nas esculturas hiperreais de Adriana Varejão. 

Musa Paradisíaca”, de 2018, serve de continuação indireta para “Atlântico Vermelho”. 

Nesta obra, há uma espécie de corpo mutante costurado: cabeça de mulher negra equilibrando uma bacia de bananas, um azulejo azul e branco centralizado no lugar do tronco e um raio-x da região pélvica.

Além disso, há uma referência irônica à canção “Yes, nós temos banana”, ode ao fruto plantado em solo brasileiro, exportado como commodity para outros países.

Enquanto a “musa” do paraíso tropical equilibra as bananas acima da cabeça, ela carrega também um bebê nas costas. Seu corpo foi usado numa “tríplice significação”: o de produto, de produtora e reprodutora (Viana, 2023) na economia escravocrata. Assim, há também uma recusa da mulher negra enquanto musa hiperssexualizada. 

O trabalho artístico de Rosana Paulino escancara o dilaceramento subjetivo e corpóreo do negro no Brasil. Serve não somente como denúncia, mas para materializar a memória daquelas/de que sustentaram. 

Ao se valer das estéticas coloniais (formais, “delicadas” e “finas”), Paulino cria um esplendor cruel ao tornar visível a dor dos sujeitos invisibilizados e assujeitados na época. A artista não se interessa pela representação de um “belo”. Na verdade, retalhar o corpo negro é uma forma de manter viva a memória de uma ferida para qual não há sutura.

Referências 

Enciclopédia ItaúCultural. Obras – Rosana Paulino. Disponível em: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/11422-rosana-paulino/obras>. 

PONTOS ATELIÊ CRIATIVO. A História do Bordado no Brasil – Pontos da Cris. Disponível em: <https://pontosdacris.com.br/a-historia-do-bordado-no-brasil-um-encanto-entrelacado-por-fios-e-culturas/?srsltid=AfmBOoqEw2X9c5GznnYnASoABg8ACfJSXvv5P4QNdqjQW1_I-2IgDvlb>. 

VIANA, Iamara da Silva. “Tríplice utilização” dos corpos negros femininos: gênero, raça, sevícias e escravidão – Rio de Janeiro, século XIX. Dossiê “Reclamando a liberdade”. Revista Tempo v. 29 n 1 Jan-Abr, Ed. UFF, 2023. 

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