Desde o seu surgimento nos anos 80 até a atualidade, o rap sempre foi um instrumento artístico para a expressão, a comunicação e a manutenção da cultura periférica (CONTIER, 2005). É normal andar pelas ruas dos subúrbios brasileiros e ter como trilha sonora os Racionais MC’s, Negra Li, Duquesa, Emicida, entre outros artistas que não só produzem música, mas contam, através de suas letras, as vivências, as dores e as alegrias da vida na periferia.
Quando olhamos para a história do rap brasileiro, é interessante observar que os movimentos sociais sempre estiveram presentes na cena e, hoje em dia, não é diferente (CONTIER,2005). Um dos movimentos que ganhou espaço definitivo dentro do gênero foi o feminismo negro. Atualmente, é muito mais fácil encontrar mulheres MCs e rappers que utilizam sua arte como incentivo, ferramenta de luta e forma de resistência, algo que antigamente era mais difícil devido à invisibilidade feminina na cena e à reprodução do sistema patriarcal dentro da cultura (SANTOS, 2025).
Hoje, a nova geração do rap feminino, além de expor o machismo escancaradamente, usa cada linha de suas músicas para enaltecer a beleza da mulher negra, incentivar a emancipação financeira e encorajar a busca pela constante evolução pessoal. Diante disso, vamos analisar as produções de rappers que têm feito história com suas discografias na cena atual.
Tasha & Tracie
Nascidas em São Paulo, no Jardim Peri, as gêmeas Tasha e Tracie já lançaram dois álbuns e dois EPs desde que iniciaram sua trajetória como rappers, em 2019. Elas se destacam no rap com letras que abordam a moda, a rotina e os desafios das periferias, além de trazerem diversas referências da cultura africana em suas faixas.
A música mais ouvida da dupla no Spotify é Amina, acumulando cerca de 37 milhões de reproduções. O título da faixa faz referência à rainha Amina de Zazzau, que viveu durante o século XVI, comandou um exército de cerca de 20 mil soldados e expandiu as fronteiras de seu reino. Ao analisar a letra, vemos que as artistas criam uma analogia com o poder ancestral que cada mulher negra tem dentro de si, usando Amina como referência de poder. Ao longo da música, elas ostentam de forma consciente suas conquistas e narram a trajetória à autonomia, deixando claro que as mulheres podem e devem conquistar tudo o que desejam.
“Amina, domino essas ruas igual Zazzau
Malibu, com suco de abacaxi natural
Capital, nóis emboscando, pra nóis é o normal”
“Um dia na minha pele vocês não aguenta
Por isso eu compito comigo mesmo
Se eu quero, já era, eu tomo
Tudo que é meu tá me esperando”
Ajulliacosta
De Mogi das Cruzes, a artista Júllia Costa (Ajulliacosta) lançou seu primeiro álbum em 2023 e o segundo em 2025, tornando-se um dos maiores nomes do rap atual. Suas letras são marcadas pelo discurso da busca pela independência feminina, demonstrando a necessidade de nos mantermos firmes, confiantes e sonhadoras ao longo da vida.
Na música Você parece com vergonha, lançada em 2024, Ajulliacosta aborda as características de um relacionamento tóxico, usando o rap como uma ferramenta de conscientização e alerta para as mulheres. No decorrer da canção, ela incentiva a busca pela individualidade e canta sobre a importância de centralizar outros objetivos na vida, indo além de um relacionamento afetivo.
“Jura que você não acha que isso é repetitivo?
Parou com o trampo, parece que ‘cê perdeu o brilho
Fala minha parceira, o que que foi que aconteceu contigo?
Ma’ não vai falar, você parece com vergonha”
“A vida é mais que isso, esse mano não te merece
Relaxa, dá um tempo que o que é seu um dia aparece
Não fica na neurose, ‘cê devia estar mais treinada que isso
Cai em ciclos viciosos por buracos afetivos.”
Ainda que sejam artistas com estilos diferentes, tanto Tasha & Tracie quanto Ajulliacosta usam o rap como ferramenta de conscientização sobre as questões que atravessam a vida das mulheres negras e periféricas. As músicas de cada uma delas, assim como as de outras rappers atuais, carregam letras que transformam perspectivas e trajetórias, o que deixa ainda mais clara a importância da existência do rap produzido por mulheres. Cantar sobre enriquecer, vestir-se bem, ser dona do próprio tempo e viver com liberdade desperta reflexões que talvez fossem muito mais difíceis de serem alcançadas por meninas periféricas sem a presença do rap.
REFERÊNCIAS
AJULLIACOSTA. Você parece com vergonha. Letras.mus.br, 2024. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ajuliacosta/voce-parece-com-vergonha/. Acesso em: 3 set. 2026.
CONTIER, Arnaldo Daraya. O rap brasileiro e os Racionais MC’s. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DO ADOLESCENTE, 1., 2005, São Paulo. Anais eletrônicos… São Paulo: FEUSP, 2005. Disponível em: http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=msc0000000082005000100010&script=sci_arttext. Acesso em: 3 set. 2026.
SANTOS, Sandra Mara Pereira dos. Musicalidades negras femininas no Rap brasileiro: desafiando violências e renovando resistências. Música Popular em Revista, Campinas, SP, v. 10, p. e025002, 2025. DOI: https://doi.org/10.20396/muspop.v10i00.18334. Disponível em: https://econtents.sbu.unicamp.br/inpec/index.php/muspop/article/view/18334. Acesso em: 3 set. 2026.
TASHA & TRACIE. Amina. Letras.mus.br, 2021. Disponível em: https://www.letras.mus.br/tasha-e-tracie/amina/. Acesso em: 3 set. 2026.