Em uma sociedade em que impera o dito “Quem vê cara, não vê coração”, os veículos de mídia e imprensa possuem grande influência e podem ser poderosos instrumentos de organização da percepção social e representação de discursos. Nesse sentido, as favelas e comunidades em vulnerabilidade social são constante alvo da sensacionalização da mídia que segue reforçando estereótipos de criminalidade e inviabilizando as potencialidades dos territórios periféricos. Por que isso acontece?
A partir do século XX, com a consolidação do capitalismo e o constante crescimento do neoliberalismo em escala global, nota-se o fortalecimento de práticas que atualizam no cotidiano o apartheid social. No Brasil, é possível notar a expressão dessa dinâmica tendo como resultado altos números de pobreza e extrema pobreza. Somado a isso, está a constante estigmatização de periculosidade e criminalidade às pessoas em situação de vulnerabilidade social, invalidando suas humanidades. Tais estereótipos se aprofundam quando encontram a interseccionalidade de raça, classe e território, de modo que a juventude negra, pobre e periférica é o alvo certo de “bala perdida” na sociedade. Com a justificativa de proteger a cidade e garantir a paz, as autoridades têm o modelo de criminoso a encontrar em suas operações de pacificação das comunidades e, para a surpresa de quem acredita na democracia racial, a cor sempre é a mesma: Preto.
As autoras Cecília Coimbra e Maria Lívia do Nascimento em “Ser jovem, ser pobre é perigoso?” usam o conceito de sociedade disciplinar para pensar as tensões entre o sistema capitalista e classe, apontando os fundamentos dessa estrutura sócio-político-histórica que revela perversos efeitos na sociedade contemporânea. A partir da vigilância social – em suas mais diversas instâncias – as elites se preocupam com as virtualidades, o vir a ser das classes mais vulneráveis. Através do controle das virtualidades, se desdobram práticas eugenistas que manipulam o imaginário social, ciências humanas e sistema judiciário de modo a garantir a marginalidade da pobreza. Assim, em meio ao capitalismo liberal, onde os trabalhadores são validados por vender sua força de trabalho, a pobreza é vista como sinônimo de ócio, improdutividade e marginalidade. Essa dinâmica se reflete no discurso de muitas pessoas que enxergam as periferias como um lugar ocioso, generalizando as múltiplas realidades.
Por isso, engana-se quem pensa que a lei da vadiagem é parte do passado brasileiro, na verdade ela continua direcionando condutas punitivistas. Desde os tempos do império, a vadiagem segue na lista de contravenções e prevê punição para pessoas que vivem no ócio. Entre as tantas problemáticas que guardam essa palavra, a falta de definição abre espaço para a livre interpretação e segue alimentando o imaginário social ao atrelar ócio a vadiagem, ignorando os diversos motivos que levam às periferias às taxas de desemprego. Nesse contexto, o direito à liberdade de expressão e protagonismo de narrativa torna-se um valor excepcional.
Por isso, organizações da sociedade civil se mobilizam em prol do jornalismo comunitário, visando comunicar a periferia através de uma narrativa que vai além dos estigmas. Se o jornalismo tradicional enquadra as subjetividades e o imaginário coletivo ao impor uma imagem única sobre a periferia, o jornalismo comunitário vai em defesa do território e da liberdade do povo. Em Voz das Comunidades, Rennan Letta (2023) afirma:
As nossas histórias não podem ser contadas sempre por alguém de fora, que muitas vezes nunca pisou no território e não tem compromisso nenhum com o que aquela fala vai gerar. […] Não é sobre fingir que nas favelas não existe violência, mas sim sobre mostrar o que há de bom. Até porque, nos bairros ricos também existe violência.
A pergunta que fica é: Quantos veículos de comunicação comunitária você conhece? Quantos jornalistas de periferia você já viu? Precisamos refletir sobre isso e mudar nosso consumo.
Conheça:
Voz da Comunidades (@vozdascomunidades) – https://www.instagram.com/vozdascomunidades/
Jornal Fala Roça (@jornalfalaroca) – https://www.instagram.com/jornalfalaroca/
Instituto Raízes em Movimento (@raizesemmovimento) – https://www.instagram.com/raizesemmovimento/
Uniperiferias (@uniperiferias) – https://www.instagram.com/uniperiferias/
Maré de Notícias (@maredenoticias) – https://www.instagram.com/maredenoticias/
Instituto Decodifica (@decodificabr) – https://www.instagram.com/decodificabr/
Tem no Subúrbio (@temnosuburbio) – https://www.instagram.com/temnosuburbio/
Baixada Cine (@baixadacine) – https://www.instagram.com/baixadacine/
A(tua) São João de Meriti (@atuameriti) – https://www.instagram.com/atuameriti/
REFERÊNCIAS
COIMBRA, C. M.B; NASCIMENTO, M. L. Ser jovem, ser pobre é ser perigoso?. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 15, n. 43, p. 141-158, 2005. Disponível em: https://app.uff.br/slab/uploads/texto23.pdf. Acesso em: 17 de set de 2024.
LETA, Rennan. A quem interessa um jornalismo sanguinário? Voz das Comunidades, 2023. Disponível em: https://vozdascomunidades.com.br/destaques/opiniao-a-quem-interessa-um-jornalismo-sanguinario/. Acesso em: 17 set. 2024.
Hellen Freitas
Graduanda em Psicologia (IP/UFRJ) e Bolsista do Laboratório de Identidades Digitais e Diversidade.