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LIDDICA – Famílias inter-raciais: tensões entre cor e amor

Hoje é dia de LIDDICA!!!! 

A dica de hoje é o livro “Famílias inter-raciais: tensões entre cor e amor”, de Lia Vainer Schucman. Este livro é fruto da pesquisa de pós-doutorado da autora que propõe a refletir sobre as dinâmicas da interação entre os membros brancos e negros que compõem uma família inter-racial. Em um país onde um terço das relações matrimoniais se dá entre pessoas que se autoclassificam como sendo de raças diferentes, Lia questiona como o amor e a afetividade podem coexistir com a violência e a discriminação de maneira sutil ou explícita.  

“Eu tinha uma hipótese que, na verdade, a família era um lugar de conforto, que ajudava as pessoas a combaterem o racismo encontrado no mundo. Achava que o primeiro encontro radical com o racismo era na escola. No entanto, essa pesquisa provou que é na família”, diz Lia em entrevista para a UOL. 

O privilégio branco se manifesta de forma simbólica e concreta. Crianças negras recebem menos apoio, menos paciência, menos investimentos e menos carinho. A frustração e as humilhações durante as reprimendas estão sempre suscetíveis a centralizar a questão racial. Outro aspecto que se observa é a negação da identidade negra da criança, como explica Lia: 

“Na maioria das vezes, a criança negra é querida por seus familiares. No entanto, o que acontece é que, para demonstrar esse amor, os familiares frequentemente ignoram sua condição de negro.”

É necessário “domar o cabelo ruim”, é preciso clarear essa criança, alterar o formato do nariz, é preciso afirmar que ela não é tão negra assim, mas sim moreninha, sarará, etc. Existe uma limitação dos afetos que não escapa às hierarquias geradas pela estrutura racista. A família não está isolada do mundo, da linguagem, dos símbolos, das imagens, ou das dinâmicas de humilhação e rejeição que são expressas pelo estigma social. Na escola, nos desenhos, nas brincadeiras, nos romances e no interior das famílias ser negro significa correr o risco de ser inferiorizado, a partir da construção social em torno da racialidade. Nesse sentido, a obra aumenta o diálogo sobre essa temática, muitas vezes distorcida pelo discurso da “palmitagem”. Vale a pena conhecer o trabalho de Lia Schucman e refletir. 

Referências

RFI. Racismo está presente também em famílias inter-raciais, mostra pesquisadora brasileira. UOL, 13 mar. 2023. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2023/03/13/racismo-esta-presente-tambem-em-familias-inter-raciais-mostra-pesquisadora-brasileira.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 29 out. 2024.

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LIDDICA – Crônicas indígenas para rir e refletir na escola

Hoje é dia de LIDD Kids por aqui! 

E finalizando o mês das crianças, hoje trouxemos uma super dica de livro para ler e refletir com a criançada: Crônicas indígenas para rir e refletir na escola, de Daniel Munduruku. A partir de crônicas rápidas, o escritor e professor indígena, utiliza sua experiência para ressignificar a narrativa educacional que segue reforçando estereótipos no imaginárico social. Nesta obra, de apenas 88 páginas, Daniel promove risos enquanto estimula a consciência e o conhecimento sobre a diversidade cultural e a necessidade de reconhecer outras perspectivas além das impostas pela história colonial. 

A lei 11.645, sancionada em 2008, tem por objetivo acrescentar a obrigatoriedade do

ensino da temática indígena ao que estabelecia a lei 10.639, que já previa a exigência de se

inserirem, obrigatoriamente, conteúdos de história e cultura afro-brasileira nos currículos da

educação básica em estabelecimentos públicos ou privados. Ainda assim, o ensino sobre a história, memória e cultura indígena segue invisibilizado na sociedade. Nesse sentido, esta obra nos auxilia na busca pela valorização da literatura indígena.

“Para que servem estes pequenos textos que aqui lhes apresento? Para que possamos nos espantar com aquilo que nos parece óbvio, mas não é. Não é, porque pouco sabemos sobre essas populações. O que nos ensinaram tem a ver com a tal da história única contada por uma voz estridente que nunca nos ofereceu outras versões e por conta disso acabamos por aceitar o que nos era ensinado.” – Daniel Munduruku. 

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Identidades de resistência: a performance frente às normas

Você já ouviu falar sobre performatividade? 

Esse é um conceito interessante para compreendermos como identidades e expressões sociais são construídas e representadas. Segundo Derrida (1988), performatividade é uma forma de expressão naturalizada a partir de repetição e rupturas. No movimento de recusa ou aceite do que é estabelecido, existe a possibilidade do novo, de se reinventar de modo a contrapor as imposições sociais. Certamente você já ouviu falar sobre algumas personas da comunidade negra carioca, como o negrocria. Esta é uma forma de performance atrelada à construção da identidade racial. O negrocria recusa aos estigmas negativos que permeiam o imaginário social sobre a periferia e se apropria da estética periférica com orgulho, incorporando influências culturais do funk e do rap. 

 Obras “Tá ok” (2023), de Bruno Lyfe, e “Vivo de janeiro a janeiro, não só em dezembro” (2021), de Hebert

Para Judith Butler (2003), que faz o diálogo do conceito de performance com discussões de gênero, a performatividade relaciona-se também com a produção de efeitos, a partir da forma como alguém se apresenta ao mundo e faz com que o outro o conheça a partir do conjunto de sentidos criados na sociabilidade. Nesse sentido, performance de gênero não está relacionada à externalização do que se é, e sim à uma forma de negociação com as imposições sociais sobre determinado gênero. Na intersecção de gênero e sexualidade, a comunidade lésbica defende a possibilidade de expressar o gênero feminino recusando a expressão hegemônica do que é ser mulher, a feminilidade. A partir da coletividade, alguns movimentos sociais buscam fortalecer a identidade desfeminilizada e reafirmar a sua legitimidade a partir da estética. 

Segundo estudiosos da psicossociologia (NASCIUTTI, 1996), a sociedade influencia o indivíduo ao passo que é influenciada pelo mesmo. A subjetividade é resultado da soma das interações e conflitos do contraste psicossocial. A psicanálise, por sua vez, assume a expressão do eu como um eco do inconsciente, moldado a partir de pulsões internas, desejos e relações sociais iniciais, principalmente na primeira e segunda infância. Para Lacan (1998), o “eu” é uma construção imaginária que busca sempre o porvir do “eu” ideal e inalcançável, a partir da linguagem se expressa uma conciliação entre as duas esferas. 

Erving Goffman (2014) explica a performance social através de uma metáfora teatral, onde o indivíduo desempenha papéis sociais, como forma de contornar a forma como é lido pelo outro. Essa atuação se dá em dois espaços principais: O palco frontal e o backstage. O palco frontal é onde as pessoas se apresentam e performam de modo a se alinhar com as expectativas do outro. Já o backstage é o espaço confortável onde é possível se comportar sem grandes preocupações em ser visto e avaliado por outros olhos. 

Diante de tantos teatros sociais, em tempos onde a mídia desenha o desejável e hegemonia segue ditando a normatividade, como podemos garantir que nossa maneira de ser e estar no mundo seja uma escolha consciente e autêntica, e não uma imposição das histórias únicas que atravessam nossa vivência? Uma performance, seja de identidade racial, de gênero ou de outros marcadores sociais, exige um olhar atento para não nos perdermos em representações que nos limitam. 

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

DERRIDA, J. (1972). Contexto do acontecimento da assinatura. Limited inc. Evanston: Northwestern University Press. p. 1-23, 1988. EAGLETON, T. (2017). Esperança sem otimismo. Londres: Yale University Press.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

LACAN, Jacques.  O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 96-103.

NASCIUTTI, Jacyara C. Rochael. Reflexões sobre o espaço da psicossociologia. In: Documenta Eicos, 1996, nº 7.

MURPHY, Ann V. “Sexualidade”. In: Fenomenologia e Existencialismo. DREYFUS, 

H.L.; WRATHALL, M.A. (Orgs.). Tradução de Cecília Camargo Bartalotti e Luciana 

Pudenzi. São Paulo: Loyola, 2012, p. 441-452.

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LIDD KIDS – Conheça Emocionário

“Tá chorando por quê?”

Quem nunca ouviu essa frase na infância? Muitas vezes, nem sabíamos responder. Afinal, durante essa fase, tudo é novo, especialmente as emoções que vão surgindo conforme crescemos. A habilidade de reconhecer e expressar sentimentos é fundamental não apenas para a nossa vida social, mas também para o diálogo que temos com nós mesmos. É aí que entra a importância da inteligência emocional. Saber nomear o que sentimos nos ajuda a entender, validar e lidar melhor com nossas emoções.

Pensando nisso, nesta semana do Dia das Crianças, trazemos uma dica incrível para ajudar as crianças (e os adultos também!) a desenvolverem essa habilidade: o Emocionário. Esse livro funciona como um dicionário de emoções, apresentando 42 sentimentos de forma simples, acompanhados por ilustrações e descrições que ajudam a compreender melhor cada emoção.

O Emocionário faz parte do projeto espanhol Di lo que sientes, que visa explorar o universo emocional das crianças. É um ótimo recurso, super didático para ser usado em sala de aula, em casa ou até mesmo para leitura individual, ajudando crianças de todas as idades a navegarem melhor pelo mundo dos sentimentos

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Encontro do grupo de estudos

Na última quinta-feira (27) tivemos nosso encontro do grupo de estudos, e a leitura do mês foi um capítulo da qualificação em desenvolvimento da Amanda Moura. Em seu trabalho, Amanda reflete sobre como mulheres negras de diferentes gerações se veem representadas (ou não) nas páginas de Instagram das revistas Glamour, Claudia e Capricho. A partir desses títulos, ela investiga questões como confiança e produção de identidade, com base nos discursos e performances reproduzidos nesses ambientes midiáticos. Estudos de Recepção, Performance e Racismo Online são utilizados para aprofundar a análise.

O trabalho também busca compreender como esses discursos e performances podem reforçar ou refutar estigmas que ainda ecoam em uma sociedade estruturalmente racista e machista como a brasileira, especialmente no contexto de mudanças sociais contemporâneas relacionadas à diversidade. As revistas femininas selecionadas, com seu grande alcance, tornam-se um pano de fundo essencial para entender de que maneira moldam a representação das mulheres negras e, por consequência, como elas percebem a si mesmas em relação à sociedade.

Foi um encontro super enriquecedor para todas nós, que aprendemos e refletimos muito com o trabalho da Amanda! 

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O jornalismo comunitário contrapondo a sensacionalização da mídia nas periferias

Em uma sociedade em que impera o dito “Quem vê cara, não vê coração”, os veículos de mídia e imprensa possuem grande influência e podem ser poderosos instrumentos de organização da percepção social e representação de discursos. Nesse sentido, as favelas e comunidades em vulnerabilidade social são constante alvo da sensacionalização da mídia que segue reforçando estereótipos de criminalidade e inviabilizando as potencialidades dos territórios periféricos. Por que isso acontece? 

A partir do século XX, com a consolidação do capitalismo e o constante crescimento do neoliberalismo em escala global, nota-se o fortalecimento de práticas que atualizam no cotidiano o apartheid social. No Brasil, é possível notar a expressão dessa dinâmica tendo como resultado altos números de pobreza e extrema pobreza. Somado a isso, está a constante estigmatização de periculosidade e criminalidade às pessoas em situação de vulnerabilidade social, invalidando suas humanidades. Tais estereótipos se aprofundam quando encontram a interseccionalidade de raça, classe e território, de modo que a juventude negra, pobre e periférica é o alvo certo de “bala perdida” na sociedade. Com a justificativa de proteger a cidade e garantir a paz, as autoridades têm o modelo de criminoso a encontrar em suas operações de pacificação das comunidades e, para a surpresa de quem acredita na democracia racial, a cor sempre é a mesma: Preto. 

As autoras Cecília Coimbra e Maria Lívia do Nascimento em “Ser jovem, ser pobre é perigoso?” usam o conceito de sociedade disciplinar para pensar as tensões entre o sistema capitalista e classe, apontando os fundamentos dessa estrutura sócio-político-histórica que revela perversos efeitos na sociedade contemporânea. A partir da vigilância social – em suas mais diversas instâncias – as elites se preocupam com as virtualidades, o vir a ser das classes mais vulneráveis. Através do controle das virtualidades, se desdobram práticas eugenistas que manipulam o imaginário social, ciências humanas e sistema judiciário de modo a garantir a marginalidade da pobreza. Assim, em meio ao capitalismo liberal, onde os trabalhadores são validados por vender sua força de trabalho, a pobreza é vista como sinônimo de ócio, improdutividade e marginalidade. Essa dinâmica se reflete no discurso de muitas pessoas que enxergam as periferias como um lugar ocioso, generalizando as múltiplas realidades. 

Por isso, engana-se quem pensa que a lei da vadiagem é parte do passado brasileiro, na verdade ela continua direcionando condutas punitivistas. Desde os tempos do império, a vadiagem segue na lista de contravenções e prevê punição para pessoas que vivem no ócio. Entre as tantas problemáticas que guardam essa palavra, a falta de definição abre espaço para a livre interpretação e segue alimentando o imaginário social ao atrelar ócio a vadiagem, ignorando os diversos motivos que levam às periferias às taxas de desemprego. Nesse contexto, o direito à liberdade de expressão e protagonismo de narrativa torna-se um valor excepcional. 

Por isso, organizações da sociedade civil se mobilizam em prol do jornalismo comunitário, visando comunicar a periferia através de uma narrativa que vai além dos estigmas. Se o jornalismo tradicional enquadra as subjetividades e o imaginário coletivo ao impor uma imagem única sobre a periferia, o jornalismo comunitário vai em defesa do território e da liberdade do povo. Em Voz das Comunidades, Rennan Letta (2023) afirma:

As nossas histórias não podem ser contadas sempre por alguém de fora, que muitas vezes nunca pisou no território e não tem compromisso nenhum com o que aquela fala vai gerar. […] Não é sobre fingir que nas favelas não existe violência, mas sim sobre mostrar o que há de bom. Até porque, nos bairros ricos também existe violência. 

A pergunta que fica é: Quantos veículos de comunicação comunitária você conhece? Quantos jornalistas de periferia você já viu? Precisamos refletir sobre isso e mudar nosso consumo. 

Conheça: 

Voz da Comunidades (@vozdascomunidades) – https://www.instagram.com/vozdascomunidades/ 

Jornal Fala Roça (@jornalfalaroca) – https://www.instagram.com/jornalfalaroca/ 

Instituto Raízes em Movimento (@raizesemmovimento) –   https://www.instagram.com/raizesemmovimento/

Uniperiferias (@uniperiferias) – https://www.instagram.com/uniperiferias/ 

Maré de Notícias (@maredenoticias) – https://www.instagram.com/maredenoticias/ 

Instituto Decodifica (@decodificabr) –  https://www.instagram.com/decodificabr/

Tem no Subúrbio (@temnosuburbio) – https://www.instagram.com/temnosuburbio/ 

Baixada Cine (@baixadacine) – https://www.instagram.com/baixadacine/ 

A(tua) São João de Meriti (@atuameriti) – https://www.instagram.com/atuameriti/ 

REFERÊNCIAS

COIMBRA, C. M.B; NASCIMENTO, M. L. Ser jovem, ser pobre é ser perigoso?. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 15, n. 43, p. 141-158, 2005. Disponível em: https://app.uff.br/slab/uploads/texto23.pdf. Acesso em: 17 de set de 2024.

LETA, Rennan. A quem interessa um jornalismo sanguinário? Voz das Comunidades, 2023. Disponível em: https://vozdascomunidades.com.br/destaques/opiniao-a-quem-interessa-um-jornalismo-sanguinario/. Acesso em: 17 set. 2024.