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Leitura mensal: “Sarará” – Fernanda Carrera

Na última quinta (29), iniciamos nosso semestre com a leitura, em primeira mão, da primeira parte do livro Sarará, da nossa professora Fernanda Carrera. 

Sarará é um livro que, a partir da escrevivência, mistura a história de Fernanda com as memórias do cotidiano de todas nós e aponta as teorias do Colorismo. Amado por uns e evitado por outros, o colorismo é o fio da meada em uma condução sensível e potente por uma história marcada por essa dinâmica da racialidade desde a infância em Pernambués até às andanças da vida adulta. Durante a leitura, você vai rir, se identificar, refletir e se envolver pela escrita que mais parece uma conversa entre pares. Longe das normas clássicas da academia, Sarará é uma escrita que nasce da experiência, do corpo presente que sente e se encontra nos entrelugares da vida. 

Ficou curiosa? Não perca o lançamento do livro, hein! 

Será no dia 13/09 às 17h na livraria Folha Seca e vai rolar até roda de samba hein. Vai ser lindo!

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HETEROCENTRISMO – Um dispositivo de poder

Dedê Fatumma (2023), em seu livro Lesbiandade, faz análises críticas sobre discursos baseados no heterocentrismo, que considera as identidades de gênero e orientação sexual a partir de um padrão normativo, envolvendo relações de poder. Trata-se de um conjunto de discursos sociais respaldados por vertentes científicas que submetem orientações sexuais e identidades de gênero à “primazia de uma heterossexualidade compulsória” (JESUS, 2013). Articulado com categorias patologizantes das ciências médicas, essa dinâmica impõe formas hegemônicas de viver, definindo a heterossexualidade como a única possibilidade de relação natural e normal.

Influenciando o pensamento ocidental e inserindo-se na tradição do modernismo (BIRMAN, 2012), a psicanálise levou campos como a medicina e a psiquiatria a reforçarem discursos patriarcais e lesbofóbicos baseados em fundamentos de Freud, como revela o estudo de caso clínico sobre uma jovem lésbica:

“O que certamente tem importância maior é a jovem, em seu comportamento para com seu objeto amoroso, haver assumido inteiramente o papel masculino, isto é, apresentava a humildade e a sublime supervalorização do objeto sexual tão características do amante masculino […]. Havia, assim, não apenas escolhido um objeto amoroso feminino, mas desenvolvera também uma atitude masculina para com esse objeto.” (FREUD, 1920, p. 148)

Freud adota o heterocentrismo como perspectiva em sua análise ao afirmar que a orientação sexual de sua paciente corresponde a um comportamento masculino. Esse discurso manteve o regime sexual (FATUMMA, 2023) conduzido pela patologização dos corpos “desviantes”. Assim, mulheres lésbicas eram submetidas a internações em hospitais psiquiátricos e terapias de reorientação sexual, além do uso de eletrochoques e hormônios femininos na tentativa de corrigir “anormalidades” (Daniel & Baudry, 1977).

Em 1973, a homossexualidade foi retirada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno mental, e nove anos depois, a Organização Mundial de Saúde (OMS) excluiu a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID). No entanto, discursos de ódio continuam sendo alimentados por pensamentos fundamentalistas e conservadores, refletindo-se nos dados sobre violências lesbofóbicas, como estupro corretivo e lesbocídio. Esse raciocínio é essencial para entender as interseccionalidades na vida das mulheres lésbicas negras.

A celebração do mês do Orgulho LGBT é, portanto, de extrema importância. Esse período não apenas reconhece as conquistas alcançadas pela comunidade LGBT ao longo dos anos, mas também ressalta a necessidade contínua de combater preconceitos e discriminações. O Orgulho LGBT promove visibilidade, apoio e solidariedade, além de fortalecer a luta por direitos iguais e o respeito às diversas identidades e orientações sexuais. Celebrar o Orgulho LGBT é reafirmar o compromisso com a igualdade e a dignidade para todas, todes e todos, independentemente de sua identidade ou orientação, criando um espaço de resistência e afirmação contra a opressão histórica e atual.

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INTERCOM – REGIONAL NORDESTE

Na semana passada, entre os dias 08 e 10, ocorreu o INTERCOM Regional Nordeste na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A professora Fernanda Carrera, líder do nosso laboratório, esteve na mesa de abertura “Os impactos da IA e das tecnologias algorítmicas na comunicação”. 

Em sua fala, Fernanda levou reflexões sobre os caminhos teórico-metodológicos interseccionais para a pesquisa em IA e tecnologias algorítmicas contemporâneas, apresentando um olhar sobre a problemática algorítmica em plataformas digitais a partir da sua racialização: antes de sugerir a emergência de erros e vieses, há a percepção de que os processos algorítmicos que condicionam majoritariamente a vida cotidiana atual seguem a lógica da branquitude. Nesse sentido, a fala versou, inclusive, sobre a lacuna da nomeação que solidifica o problema dos algoritmos contemporâneos, isto é, a incapacidade de se identificar os beneficiados rotineiramente (tanto no plano macro como na dimensão micro da vida cotidiana) pelo funcionamento das tecnologias, tornando-os escondidos sob o véu da neutralidade branca. Dentro dessa perspectiva, Fernanda argumenta que os algoritmos são uma ramificação da atitude branca, uma vez que a “a branquitude se expande, se espalha, se ramifica” (BENTO, 2002, p. 47), tornando embranquecido qualquer objeto no qual repousa seu toque.

A lógica da branquitude algorítmica também se arvora pela sua dupla neutralidade: tanto porque é branco, tanto porque é tecnologia. A concepção de neutralidade tecnológica, ou seja, de que os artifícios construídos são exatos, objetivos e independentes dos entornos culturais, é associada a mais uma camada de neutralidade, que é a sua racialização, a branquitude. Nessa direção, Fernanda aponta que toda e qualquer tecnologia que emerge de contextos racializados, sobretudo quando não operam por sua demarcação racial e em prol de iniciativas deliberadas por justiça social, provavelmente reproduzirão os enlaces coerentes a suas estruturas sociais, culturais e subjetivas.

Nossa professora fez uma excelente contribuição para a mesa ao lado de Manu Freitas (UFPE) e Paulo Faltay (UFPE), destacando a importância deste encontro para a região Nordeste, que contou com a participação de mais de 1300 congressistas. 

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MULHERISMO AFRICANA

“Até que os leões inventem suas próprias histórias, os caçadores sempre serão os heróis das narrativas de caça”.
Provérbio Bantu

O pensamento Mulherista Africana adota uma abordagem afrocêntrica pensada para resgatar o conceito de matriarcalidade do povo preto. Por matriarcalidade entende-se uma crença ancestral africana que posiciona a mulher como o centro vital e organizacional da comunidade. Enquanto para o ocidente a mulher tem por função gerir e procriar, no continente africano a sua função é gerar a potência da comunidade. Assim, as mulheristas pensam o lugar da mulher no mundo a partir de sua própria agência, destacando a capacidade dos povos em diáspora de recontar, reconstruir e criar suas próprias identidades culturais, políticas e sociais. 

Segundo a professora Ana Nzeri, o século XXI é o século de acirramento de tensões identitárias e nesse sentido, faz-se necessário a organização coletiva: “ Se somos segregados como povo, temos que reagir enquanto povo”. Ao contrapôr o feminismo e sua visão binária ocidental, insuficiente para abarcar perspectivas da população negra, o Mulherismo Africana afirma a importância de racializar as violências enfrentadas pelas mulheres e de incluir os homens negros na luta. Por isso, mais que antirracista, o Mulherismo se propõe a ser antigenocida. 

Katiúscia Ribeiro e Ana Nzeri são importantes nomes para pensarmos sobre o mulherismo africana no Brasil, reverenciando os caminhos abertos por Cleonora Hudson e Nah Doves, precursoras do pensamento mulherista. Elas difundiram essa proposta emancipadora através de palestras, debates e formações. Abaixo você pode conferir alguns vídeos: 

UMA AULA SOBRE FILOSOFIA AFRICANA E MULHERISMO | PAPO DEPRETAS

Mulherismo Africana : Katúscia Ribeiro e Aza Njeri – Programa Ciência & Letras

A partir dos ensinamentos de nossas contemporâneas, compreendemos que o mulherismo africana trata-se de uma proposta de emancipação da população negra, a partir da luta, dos ensinamentos e da sabedoria das mulheres. 

E aí, você já conhecia o mulherismo? Conta pra gente aqui nos comentários 🙂

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LIDD Convida Katiúscia Ribeiro

Na última segunda-feira (29), foi com imensa alegria que recebemos a professora e filósofa Katiúscia Ribeiro para o nosso evento “LIDD Convida”. 🌟

Durante uma valiosa aula sobre a Filosofia Africana, exploramos seu profundo enraizamento na oralitude e sua expressão tão presente no território brasileiro, mesmo diante dos deslocamentos que buscaram nos desconectar do solo africano. Refletimos sobre temas como ancestralidade, saberes ancestrais e a importância da espiritualidade e do corpo na construção e produção de sentidos. Katiúscia também falou sobre a relação dos sentidos do corpo negro em diáspora com as religiões neopentecostais e sobre a filosofia do Mulherismo Africana. 🌍📚

Contamos com a presença de 65 pessoas no nosso encontro, entre elas estavam integrantes dos grupos CORAGEM, grupo de pesquisa em Comunicação, Raça e Gênero, da UFMG; LIMBO – Laboratório de Imagem e Estéticas Comunicacionais, da UFCA; OLHOS NEGROS – Visibilidades e alteridades na fotografia negra contemporânea brasileira, da UFRN; e o NEGRECS – Núcleo de Estudos de Gênero e Relações Étnico-raciais na Educação Audiovisual em Ciências e Saúde, da UFRJ.

Em breve, compartilharemos o encontro na íntegra para que todos possam se inspirar e aprender conosco. Agradecemos imensamente à Professora Katiúscia pela sua contribuição e a todos que participaram desse encontro enriquecedor! 

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Grupo de estudos – 17/04

Essa semana, nosso grupo de estudos se reuniu para discutir sobre algumas contribuições da filósofa Katiúscia Ribeiro, a partir de três vídeos do programa, apresentado por ela, “O Futuro é Ancestral”. Assim, pensamos sobre Epistemologia, Filosofia Africana e O Poder dos Mitos, compreendendo que a perspectiva afrocentrada está comprometida com paradigmas que coloquem a população negra no centro do discurso e se nutre através da sabedoria dos mais velhos, passada pela oralidade. 

Ao pensar sobre epistemologia, Katiúscia ressalta o conceito de Epistemicídio, criado por Sueli Carneiro, caracterizado como uma prática de exclusão e deslegitimação do conhecimento não-ocidental. É interessante perceber os movimentos de resistência que foram desenvolvidos na contramão do silenciamento imposto à população negra, como o samba, os terreiros, os quilombos, o funk, os slam e tantas outras práticas de fortalecimento do coletivo a partir da reafirmação de saberes. 

Em Kemet, temos a origem do que o Ocidente se apropriou ao longo da história: Arquitetura, arte, música, agricultura, navegação, números e etc. Foi em território africano que práticas e instrumentos usados cotidianamente por nós foram criados, mas a quem interessa reconhecer as potências gestadas e resgatar a origem desses conhecimentos? É através da Filosofia Africana que a professora Katiúscia desenvolve o seu trabalho e afirma que a história do povo africano começa com a partilha de saberes, passados através da ancestralidade, uma maneira de se reconhecer e de reconhecer o outro. 

Nesse sentido, buscamos entender o sentido do mundo e da realidade através dos mitos. Os mitos sempre existiram, em algumas crenças podemos vê-los nas parábolas e nos provérbios, entretanto podemos notar facilmente uma diferença entre ambos.

E qual é a diferença? Os mitos e as parábolas não possuem a mesma finalidade de nos conduzir à reflexão? 

Tendo em vista as estratégias de colonização, podemos perceber ao longo da história, o quanto os mitos africanos e originários são marginalizados na sociedade, exemplo disso é a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira em sala de aula, ainda estar sendo descumprida em muitos espaços de formação.