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LIDDICA – Dona Poeira – Pra Ser Rainha Tem Que Saber Governar

O documentário Dona Poeira – Pra ser rainha tem que saber governar de Guilherme Begué acompanha Marcia Marçal, Iyalorixá, escritora, filha de Obaluaê e matriarca do Ilê Asé Oluaê Oya.

A produção, que aborda o dia a dia e as vivências de Mãe Marcia e toda a comunidade que compõe o seu axé, expõe como funciona os costumes de uma casa de santo, os fundamentos e respeitos que são necessários para realizar os festejos e como se iniciou a caminhada de Mãe Marcia na religião.

É feito um importante recorte sobre exu e seus mistérios no curta, desmistificando essa figura tão emblemática e questionada pela sociedade que procura símbolos para vincular ao negativo. Com isso, o documentário se mostra uma forte fonte de saber ao dar voz a uma mulher preta, permitindo a ela um espaço para contar sua história.

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LIDDICA – “Tudo nela é de se amar: A pele que habito e outros poemas sobre a jornada da mulher negra” e “Jamais peço desculpas por me derramar: Poemas de temporal e mansidão”

A liddica de hoje é em dose dupla. Hoje nossa indicação são dois livros de poesia, escritos por duas mulheres negras incríveis!!!

O primeiro livro é “Tudo nela é de se amar: A pele que habito e outros poemas sobre a jornada da mulher negra” de Luciene Nascimento. Luciene é poeta, advogada e escritora, vencedora do Prêmio Dandara e Zumbi dos Palmares na categoria Comunicação e atualmente é vice-presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB- Barra Mansa-RJ. Com uma sutileza ímpar, a poeta tece palavras para contar histórias, traduzir dores e afetos vividos por mulheres negras. De forma madura e sensível convida o leitor a refletir sobre identidade, memória, ancestralidade, auto estima, saúde mental e tantos outros temas que perpassam a experiência que é uma mulher habitar um corpo preto.

 No prefácio do livro, o ator Lázaro Ramos diz:

“Luciene Nascimento é uma explosão em forma de poesia. Foi exatamente o que percebi quando, pela primeira vez, tive contato com a sua forma de compreender a identidade. Com especial talento, Luciene como que recolhe palavras que andam soltas por aí e as ressignifica, explicando, de forma terna e contundente, toda uma existência.”

Ainda falando sobre mulheres incríveis, o segundo livro é “Jamais peço desculpas por me derramar: Poemas de temporal e mansidão”  de Ryane Leão. Ryane é poeta e professora cuiabana. Publica seus escritos na página Onde jazz meu coração e recita seus poemas nos saraus e slams do Brasil. Seu trabalho é pautado na resistência das mulheres e focado na luta e no fortalecimento pela arte e pela educação. Neste livro, publicado em 2019, somos presenteadas com palavras, palavras que provocam dor e conforto, incomodam e emocionam. Longe da mulher-maravilha imposta às mulheres negras, Ryane se permite ser inteira e compartilha conosco a experiência de, apesar de forte, também sucumbir. É costurando dores, conflitos, resistência e coragem que a poeta nos toca com sua obra.

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Leitura da Semana – Becos da memória

Hoje, no nosso encontro semanal de leituras, debatemos sobre o livro “Becos da memória” da autora e linguista Conceição Evaristo. A apresentação do livro foi feita pela integrante do LIDD Elen Karoline. Elen trouxe para a nossa discussão o termo “Escrevivências” cunhado por Conceição, o que se traduz em “uma tentativa de fundir a escrita e a vida”, e a relação do termo com o conceito de “Pretuguês” elaborado pela autora Lélia González para pensar a identidade cultural brasileira através da língua. Além disso, Elen também ressalta a importância de Becos da memória por ser um livro de ficção da memória, uma narrativa que ultrapassa o discurso inventado para relevar os impasses do cotidiano, o que provoca a identificação do leitor com o que está escrito. Nos tornamos confidentes de Conceição quando lemos em suas narrativas o que pode ser tão próximo da nossa realidade. 

Vale a pena conferir e refletir mais sobre a sua obra!

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O dia 13 de Maio no Carnaval Carioca

As escolas de samba, redutos pretos, locais de resistência e saber epistemológico, são referências em contar história, mas principalmente em contar sua própria história, pelo carnaval ser uma festa popular, que canta e exclama os sentimentos da população. 

No dia 13 de Maio de 1.888 se comemorou a assinatura da Lei Nº 3.353, popularmente conhecida como Lei Áurea, que declara extinta a escravidão no Brasil. De 1.888 pra cá, as escolas de samba tiveram muito o que falar e questionar sobre a realidade brasileira desde a assinatura dessa lei.

Recentemente, no dia 4 de Maio de 2023, entrou em vigor a Lei 14.567/2023. Sancionada pelo presidente Luiz Inácio da Silva e pelos ministros Margareth Menezes da Purificação Costa – Cultura (MINC) e Flávio Dino de Castro e Costa – Justiça e Segurança Pública (MJSP), a lei reconhece as escolas de samba como manifestação da cultura nacional.

Também em Maio, e também no dia 13, se comemorou o dia do Preto Velho na Umbanda, figura essa que representa todo o saber dos nossos mais velhos, saber esse que apesar de parte ter se perdido resiste nas almas de Pai Joaquim, Vó Cambinda, Tia Maria e em seus conselhos, seu cachimbo, bengala e gingado. Vive no colo de velho, que acalenta o corpo e a alma.

Com toda essa comemoração, nada mais justo do que exaltar aqui uma junção dessas três. O texto traz alguns dos principais carnavais que não só falam como simbolizam a resistência.

Antes de começar, é importante frisar que essa lista não nasce com caráter avaliativo, longe disso, ela nasce como uma forma de amplificar a arte e a cultura popular, nasce do resgate aos artistas que pavimentaram o caminho por onde andamos hoje, os carnavalescos, compositores, enredistas e outros que pensaram e criaram a cultura popular que hoje celebramos. 

Salgueiro 1960 – Quilombo dos Palmares

A 63 anos atrás, surge um dos primeiros sambas versados nesse pensar, composto por Anescar Rodrigues e Noel Rosa, ganhou voz com o próprio Noel Rosa e cadência com a Furiosa de Mestre Tião da Alda. 

“No tempo em que o Brasil ainda era

Um simples país colonial,

Pernambuco foi palco da história

Que apresentamos neste carnaval”

O desfile, assinado e desenvolvido pelo grande Fernando Pamplona, rendeu ao Acadêmicos do Salgueiro o seu primeiro campeonato. Para o professor Luiz Antônio Simas, o desfile é uma aula de história fora de sala.

“Em 1960, o Salgueiro desfilou com Quilombo dos Palmares, quando Palmares nem era citado na maioria dos livros didáticos brasileiros”, afirma Simas.

Mangueira 1988 – 100 anos de Liberdade – Realidade ou Ilusão?

Em comemoração dos 100 anos da abolição da escravatura, a Primeira Estação levava pra avenida o questionamento “100 anos de Liberdade – Realidade ou Ilusão?”. O samba, escrito por Hélio Turco, Jurandir e Alvinho, cadenciado por Taranta e Birinha Mestres da Tem Que Respeitar Meu Tamborim, e interpretado pelo grande Jamelão, eterna voz da verde e rosa, trazia em sua letra fortes reflexões.

“Pergunte ao Criador

Quem pintou esta aquarela

Livre do açoite da senzala

Preso na miséria da favela”

O questionamento, desenvolvido pelo carnavalesco Júlio Matos, levou a escola ao segundo lugar. Um dos destaques do desfile foi sua comissão de frente com grandes personalidades pretas do Brasil, como Gloria Maria e Djavan. 

Vila Isabel 1988 – Kizomba – A Festa da Raça

Também celebrando os 100 anos da abolição da escravatura, em Kizomba temos o primeiro título da Unidos de Vila Isabel. 

“Esta Kizomba é nossa Constituição”

O enredo foi pensado por Martinho da Vila após uma de suas viagens à África, porém foi desenvolvido pelos artistas Milton Siqueira, Paulo César Cardoso e Ilvamar Magalhães. Kizomba nasce do Kimbundo, uma das línguas faladas na Angola.

“Do ritual da Kizomba fazem parte inerentes o canto, a dança, a comida, a bebida, além de conversações em reuniões e palestras que objetivam a meditação sobre problemas comuns.” – Martinho da Vila.

A Swingueira da época, comandada por Mestre Mug, brincou na avenida com um samba escrito por Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila e cantado por Gera e Jorge Tropical. O desfile foi visto apenas uma vez, já que devido a uma forte chuva no Rio de Janeiro não foi possível realizar o tradicional sábado das campeãs.

“Vem a lua de Luanda 

Para iluminar a rua

Nossa sede é nossa sede

De que o “apartheid” se destrua”

Imperatriz Leopoldinense 1989 – Liberdade! Liberdade! Abra as Asas Sobre Nós!

Em 89, foi a vez da Rainha de Ramos levar pra avenida a celebração pela Lei Áurea. Liberdade! Liberdade! Abra as Asas Sobre Nós foi pensado e desenvolvido pelo carnavalesco Max Lopes, que garantiu o título para a Imperatriz.

O desfile virou pop, seu samba, escrito por Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir e interpretado por Dominguinhos do Estácio se tornou tema de novela, sendo considerado um dos sambas mais conhecidos em toda a história do carnaval. 

O Swing da Leopoldina, bateria da escola, foi comandado por Mestre Beto.

“Liberdade, liberdade

Abra as asas sobre nós

E que a voz da igualdade

Seja sempre a nossa voz”

Paraíso do Tuiuti 2018 – Meu deus, Meu deus. Está Extinta a Escravidão?

Recém chegado do grupo de acesso em 2017, um acidente balançou as estruturas da escola, mas não a desmotivou. Em 2018 a escola apostou alto e compensou, tendo apresentado na Sapucaí “Meu deus, Meu deus. Está Extinta a Escravidão?”. O enredo foi pensado e desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos.

O samba foi composto por Cláudio Russo, Moacyr Luz, Jurandir, Zezé e Aníbal, cadenciado pela Super Som do Mestre Ricardinho e interpretado por Nino do Milênio, Celsinho Moddy e Grazi Brasil. 

“Meu Deus! Meu Deus!

Se eu chorar não leve a mal

Pela luz do candeeiro

Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor

Meu Paraíso é meu bastião

Meu Tuiuti, o quilombo da favela

É sentinela da libertação”

O Quilombo do Samba conseguiu sua maior colocação com esse desfile, cravando um segundo lugar na tabela. Entre os pontos altos do desfile, figuram a imagem do “presidente-vampiro” e a ala “Manifestoches”, representando uma sátira ao governo da época e seus defensores. 

Mangueira 2019 – História Pra Ninar Gente Grande

Por fim, o mais recente da lista. História Pra Ninar Gente Grande é pra muitos um clássico desde seu surgimento, tendo um samba impactante e uma forte promessa como sinopse. O enredo foi pensado e desenvolvido por Leandro Vieira.

“Bem mais “exemplar” a princesa conceder a liberdade do que incluir nos livros escolares o nome de uma “realeza” na qual ZUMBI, DANDARA, LUIZA MAHIN, MARIA FELIPA assumissem seu real papel na história da liberdade no Brasil.” – Leandro Vieira.

O samba foi composto por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, com Mestre Wesley Assumpção na bateria e interpretado por Marquinhos Art’Samba. 

“Brasil, meu nego

Deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo a Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento”

Um dos pontos altos do desfile foi a comissão de frente de Priscilla Mota e Rodrigo Neri, que revelava os verdadeiros heróis brasileiros. O desfile passou campeão com nota máxima, sem perder ponto em nenhum quesito.

Escrito por Yago Ramos

Referências:

CINTRA, André. Como a resistência negra inspirou dois dos maiores sambas de enredo. Vermelho, 2023. Disponível em: <https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/como-a-resistencia-negra-inspirou-dois-dos-maiores-sambas-de-enredo/> Acesso em: 13 de Maio de 2018.

Quilombo dos Palmares. Galeria do Samba. Disponível em: <https://galeriadosamba.com.br/escolas-de-samba/academicos-do-salgueiro/1960/> Acesso em: 13 de Maio de 2018.

100 anos de Liberdade – Realidade ou Ilusão? Galeria do Samba. Disponível em: <https://galeriadosamba.com.br/escolas-de-samba/estacao-primeira-de-mangueira/1988//> Acesso em: 13 de Maio de 2018.

Kizomba – A Festa da Raça. Galeria do Samba. Disponível em: <https://galeriadosamba.com.br/escolas-de-samba/unidos-de-vila-isabel/1988/> Acesso em: 13 de Maio de 2018.

Liberdade! Liberdade! Abra as Asas Sobre Nós!. Galeria do Samba. Disponível em: <https://galeriadosamba.com.br/escolas-de-samba/imperatriz-leopoldinense/1989/> Acesso em: 13 de Maio de 2018.

Meu deus, Meu deus. Está Extinta a Escravidão? Galeria do Samba. Disponível em: <https://galeriadosamba.com.br/escolas-de-samba/paraiso-do-tuiuti/2018/> Acesso em: 13 de Maio de 2018.

História Pra Ninar Gente Grande. Galeria do Samba. Disponível em: <https://galeriadosamba.com.br/escolas-de-samba/estacao-primeira-de-mangueira/2019/> Acesso em: 13 de Maio de 2018.

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Leitura da Semana – Na Casa de Meu Pai – A África na Filosofia da Cultura

Essa semana no LIDD, dia 11/05, debatemos o primeiro capítulo do livro Na Casa de Meu Pai – A África na Filosofia da Cultura, do teórico cultural Kwame Anthony Appiah.

Kwame Anthony Akroma-Ampim Kusi Appiah é um filósofo nascido na Inglaterra, onde morou até se mudar para Gana, país de seu pai que na época era estudante de direito em Londres. Referência no estudo de África e afro-americanos, a Revista Policy elegeu Kwame como um dos principais pensadores globais em 2010, com livros que abordam questões como racismo, identidade e moral. 

Em Na Casa de Meu Pai – A África na Filosofia da Cultura, Kwame dialoga com uma abordagem ampla de teorias étnicas, pan-africanas e nacionais, e a forma que essas questões impactam o pensamento sobre a África. 

O LIDD em seu debate explorou o olhar pan-africanista, em que ao adotar termos e enquadramentos europeus como forma de resposta às violências que foram expostos, acaba se minimizando as diferenças entre os povos africanos.

A conversa foi mediada pela participante do LIDD Sandra Martins, doutoranda pelo PPGCOM/UFF.

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Afropessimismo e o fim do mundo

Elaborado por Frank Wilderson III, o afropessimismo é uma lente de interpretação ou uma forma de teoria crítica. Seu trabalho é baseado nas obras do psiquiatra martinicano Frantz Fanon (1925-1961) que defende a teoria de que não importa o lugar, a negritude gera um estado de ansiedade. Fanon e Frank concordam que a escravidão é uma dinâmica racial que ainda não terminou. Não importa a teoria consciente, no inconsciente social a pessoa negra é destituída de sua humanidade. E ao que tudo indica, o conceito se mantém atual: 

Acesso em: Agência Brasil

Em entrevista ao Jornal Folha, em 2021, na ocasião do lançamento de seu livro “Afropessimismo”, o autor fala mais sobre o movimento intelectual que analisa e comenta sobre o caso da morte da designer Kathlen Romeu. Confira abaixo alguns trechos: 

No início do mês, uma mulher negra que estava grávida morreu baleada durante uma ação policial em uma favela no Rio. Essa morte ilustra a sua afirmação de que pessoas negras não são vistas como pais, mães, filhos de alguém? F: Sim. Até 1865, a negritude era escravizada nos Estados Unidos. Aí houve uma guerra civil, emancipação, e as pessoas passaram a andar “livres”. Como a interpretação psíquica a respeito das pessoas negras poderia ter mudado da noite para o dia? Que evidências existem para sugerir isso? As pessoas me dizem: “prove”. Eu digo: “Não, você prove o oposto”. Você me prove que uma guerra aconteceu, correntes foram retiradas e, do nada, negros passaram a ser vistos como cidadãos e não como recursos.

Tem sido comum que vídeos de violência policial contra negros, como no caso de George Floyd, viralizem. Pessoas brancas compartilham esse conteúdo e, conscientemente, se dizem revoltadas. Mas, inconscientemente, o que acontece? F: O que temos no Instagram e no Twitter são duas coisas colidindo. São imagens que produzem evidência para a causa, mas que também são prazerosas de assistir para o inconsciente. Como não refletimos sobre aquilo como sofrimento de um ser humano, a proliferação dessas imagens serve para fortalecer a divisão entre humanos e negros.

O inconsciente de uma pessoa sabe: para que isso acontecesse comigo, teria que haver uma justificativa. As imagens têm uma presença bifurcada. Sim, talvez elas ajudem com punições, mas também produzem uma sensação mais profunda de nós contra eles.

É uma fetichização da violência contra negros? F: Sim, é exatamente o que eu queria dizer.

O senhor sustenta que toda relação entre negros e não-negros é parasitária. Ao mesmo tempo, cita sua mulher, Alice, que é branca. Como o senhor concilia a sua visão estrutural da sociedade e seus sentimentos, afetos, relações? F: Esse livro não ajuda a conciliar os problemas. Eu não concilio. Você não pode dizer que porque você ama uma pessoa branca, então você não é o escravo dela. As relações acontecem em múltiplos níveis. Quando pessoas dizem que se amam, e uma delas é branca e a outra negra, não significa que estejam mentindo. Mas também não significa que elas passem a ser da mesma espécie.

Esse é o desafio de ler o afropessimismo. Saidiya Hartman dizia para mim: por quanto tempo você consegue sentar no casco do navio dos escravos? É o que o meu livro está perguntando: por quanto tempo você consegue sentar com esse problema sem ter que perguntar como escapar dele?

Frank B. defende a recusa da analogia do racismo e outras formas de opressão, como a misoginia, xenofobia, discriminação de imigrantes e exploração do trabalho. Faz-se necessária a distinção uma vez que as diferenças são importantes política e epistemologicamente, e por isso a comparação leva a diluição das demandas específicas da população negra. 

Os estudiosos que caminham ao lado de Wilderson, como Saidiya Hartman, W.  E.  B.  Du  Bois e Jared Serton argumentam que a única saída para pôr fim a essa dinâmica racial seria o fim do mundo. Muitos leitores podem se assustar ao ler essa “solução” e até pensar que estão sendo utópicos demais, mas a quem interessa manter a sociedade tal como ela é? Como foi citado anteriormente, 523 pessoas resgatadas, vítimas de trabalho análogo a escravidão e infelizmente esta notícia não é novidade nos dias atuais. Talvez nosso mundo esteja ainda mais próximo aos tempos passados. Talvez os afropessimistas estejam certos!

E você? O que acha? Deixa aqui nos comentários a sua opinião e contribua com a nossa discussão! 

Referências: 

ALBUQUERQUE, Ana Luiza. Negros não são vistos como humanos, mas objetos, diz autor de ‘Afropessimismo’. Folha, 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/06/negros-nao-sao-vistos-como-humanos-mas-objetos-diz-autor-de-afropessimismo.shtml

Em 2023, 523 vítimas de trabalho análogo à escravidão foram resgatadas. Agência Brasil, 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-03/em-2023-523-vitimas-de-trabalho-analogo-escravidao-foram-resgatadas 

NATALI, M. O Afropessimismo e a antinegritude do mundo. Afro-Ásia, Salvador, n. 66, p. 729–739, 2022. 

WILDERSON III, Frank B. Afropessimismo. São Paulo: Todavia, 2021.