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LIDDKIDS: Livro “Diálogos Feministas Antirracistas (e nada fáceis) com Crianças

A #LIDDKIDS da semana é o livro “Diálogos Feministas Antirracistas (e Nada Fáceis) com as Crianças”, de Bianca Santana, com ilustrações de Tainan Rocha.

A obra parte de situações do cotidiano para abordar, de forma acessível e acolhedora, temas como racismo, machismo, desigualdade e cidadania. Ao longo das páginas, a autora mostra que as perguntas das crianças sobre o mundo podem se transformar em oportunidades para fortalecer o diálogo, a escuta e o pensamento crítico dentro de casa, na escola e em outros espaços de convivência.

Sem apresentar respostas prontas, o livro convida adultos e crianças a refletirem juntos sobre questões sociais importantes, incentivando conversas que contribuem para a construção de relações mais conscientes, respeitosas e inclusivas.

Apesar de ser um livro voltado especialmente para o público infantil, essa certamente é uma leitura potente para quem acredita que a educação antirracista começa desde cedo e se fortalece por meio do diálogo.

Você já conhecia essa obra? Conta pra gente nos comentários!

Para mais conteúdos como esse, acompanhe nossas redes sociais!💛

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BRAZIL CORE: Quem pode representar o Brasil? – Millena Salles

Nos últimos anos — basicamente, a partir de 2022 —, o chamado Brazil Core transformou símbolos populares brasileiros em tendência global. Chinelos, lajes, bailes, camelôs, funk, futebol, fios elétricos e estéticas da periferia — popularmente chamadas como estéticas ou estilos “de cria” — passaram a circular como referências visuais desejáveis nas redes sociais e na moda.

Mas essa valorização levanta uma questão importante: por que determinadas expressões culturais só passam a ser vistas como criativas, autênticas ou sofisticadas quando são deslocadas de seus territórios de origem?

Grande parte dos elementos associados ao Brazil Core nasce em contextos negros e periféricos, marcados por décadas de estigmatização. Durante muito tempo, essas mesmas referências foram associadas à pobreza, à marginalidade ou à falta de prestígio social.

Quando reaparecem mediadas por influenciadores, marcas ou celebridades brancas, muitas vezes passam a receber reconhecimento, admiração e espaço nos circuitos globais de consumo.

A discussão não é sobre quem pode usar ou consumir essas referências, mas sobre quem recebe visibilidade, lucro e legitimidade ao representá-las.

Por isso, falar de Brazil Core também é refletir sobre quais imagens de brasilidade são selecionadas, amplificadas e exportadas para o mundo — e quais sujeitos continuam sendo deixados à margem dessa narrativa.

Para refletir sobre essa e outras temáticas, acompanhe o LIDD nas redes sociais!💙🇧🇷

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Arquibancadas Brancas, Gramados Negros – Millena Salles

Na semana passada, assistindo de casa o último amistoso do Brasil antes da Copa do Mundo, me peguei tendo a seguinte conversa com o meu pai após percebermos que o estádio era composto majoritariamente por torcedores brancos:

— Caraca, só tem branco..! É…agora é só assim. — Disse ele. 

— E olha que os ingressos nem estavam tão exorbitantes dessa vez. — Eu respondi, balançando a cabeça um tanto desapontada.

— Mas ultimamente têm estado. Aí o preto nem se interessa em ver pra comprar. — Disse, um pouco alheio. — Nem lembro a última vez que eu quis ir ao Maracanã… — Ele continuou, sem tirar os olhos da televisão,  acompanhando o exato momento que Rayan, cria do Vasco da Gama, faz um gol.

— Pois é, né. E o mais louco disso tudo é que a maioria dos jogadores do Brasil nessa seleção, e também nos melhores times do mundo, são negros.

Eu concluí. E só então eu percebi o peso dessa conversa: o Brasil, além de não ser mais apaixonado por futebol como antes, agora exclui mais do que antes.

Eu poderia facilmente dissertar sobre a elitização dos estádios ao redor do país como um efeito material do pacto da branquitude (Bento, 2022), mas isso seria apenas a pontinha do iceberg. 

O racismo no futebol se dá não só nas condições de quem consegue ocupar arquibancadas atualmente, mas alcança especialmente as condições de trabalho dos atletas negros nesse esporte.

Seja na Copa do Mundo ou nos diversos campeonatos que existem Brasil afora. Seja com jogadores brasileiros ou estrangeiros. Seja em território brasileiro ou fora.

Ainda que sejam protagonistas históricos do esporte mais famoso do mundo e responsáveis diretos pelas revoluções que ocorreram no futebol, os jogadores negros — os mesmos que frequentemente são disputados para compor as maiores equipes do planeta — lidam com o contraste da discriminação racial que persiste na nossa sociedade desde a colonização.

Pelé, Garrincha, Vampeta, Kylian Mbappé, Sadio Mané, Formiga, Ousmane Dembélé…em diferentes épocas, a mesma realidade. Realidade essa que acomete a saúde mental desses profissionais e a representatividade que as nossas crianças buscam através do esporte. 

Pergunto-me, honestamente, se à longo prazo nossas crianças negras ainda se enxergarão nesse esporte. Ou se ao menos terão o interesse de assistir ao vivo aquilo que já foi um dos maiores símbolos nacionais.

Digo já foi, pois talvez o símbolo agora seja outro — tendo em vista que ultimamente, mais recorrente do que um jogo cativante da seleção brasileira, tem sido os casos incessantes de racismo contra jogadores como Vini Jr (inegavelmente um dos principais alvos desse crime na atualidade).

O Brasil é frequentemente chamado de país do futebol. Contudo, a principal pergunta que fica, e a qual infelizmente eu não tenho resposta, é a seguinte: Diante da elitização dos estádios e do racismo enfrentado por atletas negros ao redor do mundo, será que o futebol continua sendo um espaço para todos no país? 

Fica a reflexão.

BIBLIOGRAFIA:

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

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Harmonia Rosales: por uma arte negra contravisual

O trabalho de Harmonia Rosales, artista estadunidense com descendência afro-cubana, re-interpreta os cânones da pintura, misturando elementos das culturas negras às iconografias mais conhecidas da História da Arte, como “O Nascimento da Vênus”, de Sandro Boticelli. 

Rosales se apropria de obras icônicas do Renascimento europeu e substitui a centralização dos corpos brancos por corpos negros femininos, a exemplo da série “Black Imaginary To Counter Hegemony – B.I.T.C.H.” (2017), deslocando a corporeidade negra de séculos de apagamento e sub-representações na cultura visual do Ocidente. 

Transitando entre iconografias religiosas e mitológicas, a série B.I.T.C.H. simboliza, sobretudo, a ancestralidade e o divino feminino iorubá como estratégias de reivindicação artística e de contravisualidade (Mirzoeff) na contemporaneidade. Neste trabalho, mobilizamos o imaginário produzido pela artista para analisar seus potenciais estéticos e culturais, observando como a ressignificação das tradições ocidentais e das representações figurativas atua para tornar as mulheres negras dignamente visíveis na História da Arte.

O Nascimento de Oxum

Em O Nascimento de Oxum, Rosales se apropria de O Nascimento de Vênus, do italiano Botticelli, substituindo o ideal renascentista de beleza da deusa romana Vênus pela figura de Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade e do ouro. 

A composição visual é rapidamente reconhecível, mas se diferencia profundamente da obra do Renascimento ao sacralizar as religiões de matriz africana naquele cenário. A obra apresenta a divindade sob uma nudez nada erótica. As marcas na pele da orixá também serve como contra-imaginário ao padrão do “belo” da visualidade ocidental.

A Criação de Deus

Re-interpretação do afresco de Michelangelo no teto da Capela Sistina, A Criação de Deus  subverte a imagem original que representa Deus e Adão, o primeiro ser humano segundo a cultura cristã, como dois homens brancos. Na versão de B.I.T.C.H, as mulheres negras mais uma vez são retratadas no lugar das outras figuras, evidenciando novamente a sacralização ao colocar uma mulher no lugar do Deus como reivindicação do imaginário do “Pai”, criador da humanidade à sua imagem e semelhança. Há, então, uma filiação ontológica com os corpos negros femininos, antes fora da representação de Michelangelo. 

A Mulher Virtuosa

Nesta obra, Rosales volta-se para o Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, símbolo máximo do antropocentrismo, do racionalismo e do humanimo. A ilustração de Da Vinci estabeleceu as proporções “perfeitas” do corpo humano padronizando. Desse modo, estabelecendo a anatomia masculina europeia como a medida universal de todas as coisas, também no campo artístico. Ao recriar esse desenho, a artista inscreve o corpo feminino negro a fim de simbolizar a corporeidade negra no centro da própria humanidade.

Passear por essas três obras revela que o projeto estético de Harmonia Rosales ultrapassa o mero pastiche figurativo em direção à imaginação contravisual. Ao ressignificar o corpo na mitologia, na religião e na medida universal da razão humana, Rosales  expõe a branquitude como uma construção representacional na História da Arte, enquanto promove seu contra-imaginário. Ela retira a mulher negra da margem do imaginário ocidental e a reposiciona no epicentro simbólico.

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Entre fragmento e costura: o corpo negro nas obras de Rosana Paulino

Colagens, transferências fotográficas, técnicas de arte têxtil, uso de objetos ancestrais e imagens de arquivo das mulheres negras escravizadas no século XIX. O estilo de Rosana Paulino tem suscitado importantes contribuições para os campos artístico e acadêmico hoje. 

Primeira mulher negra a se tornar doutora em Artes Visuais pela USP, Paulino é um dos nomes mais proeminentes quando falamos sobre a representação crítica da história do sujeito negro, partindo de imagens (majoritariamente racistas) usadas para fins “científicos e médicos”, que ganham novos contornos no debate contemporâneo.

Evidenciamos um signo em comum nas obras da artista: a presença recorrente do corpo negro dilacerado, fragmentado e atravessado pela violência colonial.

Bastidores (1997), um dos primeiros trabalhos notórios de Paulino, apresenta bordados com rostos de mulheres negras, cujos olhos e bocas são perpassados por linhas pretas. O título faz alusão à peça que firma o pano para bordar, chamado de bastidor. 

As técnicas de bordado possuem genealogia tanto nas culturas ameríndias, africanas e coloniais. Em Bastidores, Rosana se utiliza do bordado europeu (mais fino, com linhas delicadas e muito presente nas classes mais abastadas) para expressar o cenário de horror. 

Transferir os rostos de mulheres negras ao tecido permite a reflexão do observador sobre as tradições na cultura brasileira, sobre o anonimato dos rostos historicamente apagados.

“Atlântico Vermelho” (2017):

Aqui, Rosana desmembra o corpo negro numa colcha de retalhos e o coloca ao lado de ícones que remontam ao período da chegada dos portugueses ao Brasil: navios, ilustrações antropológicas e registros da escravidão, retirando os olhos e rostos das figuras representadas.

Por entre os típicos azulejos trazidos de Portugal para a arquitetura do Brasil colonial, vemos um osso humano; bordado sobre a estampa em linha vermelha, a frase “ATLÂNTICO VERMELHO” é complementada pelas linhas, como sangue jorrado, que escapam dos azulejos. 

Uma maneira poética de materializar um rio perene de sangue ancestral dos escravizados, algo também encontrado nas esculturas hiperreais de Adriana Varejão. 

“Musa Paradisíaca”, de 2018, serve de continuação indireta para “Atlântico Vermelho”. 

Nesta obra, há uma espécie de corpo mutante costurado: cabeça de mulher negra equilibrando uma bacia de bananas, um azulejo azul e branco centralizado no lugar do tronco e um raio-x da região pélvica.

Além disso, há uma referência irônica à canção “Yes, nós temos banana”, ode ao fruto plantado em solo brasileiro, exportado como commodity para outros países.

Enquanto a “musa” do paraíso tropical equilibra as bananas acima da cabeça, ela carrega também um bebê nas costas. Seu corpo foi usado numa “tríplice significação”: o de produto, de produtora e reprodutora (Viana, 2023) na economia escravocrata. Assim, há também uma recusa da mulher negra enquanto musa hiperssexualizada. 

…

O trabalho artístico de Rosana Paulino escancara o dilaceramento subjetivo e corpóreo do negro no Brasil. Serve não somente como denúncia, mas para materializar a memória daquelas/de que sustentaram. 

Ao se valer das estéticas coloniais (formais, “delicadas” e “finas”), Paulino cria um esplendor cruel ao tornar visível a dor dos sujeitos invisibilizados e assujeitados na época. A artista não se interessa pela representação de um “belo”. Na verdade, retalhar o corpo negro é uma forma de manter viva a memória de uma ferida para qual não há sutura.

Referências 

Enciclopédia ItaúCultural. Obras – Rosana Paulino. Disponível em: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/11422-rosana-paulino/obras>. 

PONTOS ATELIÊ CRIATIVO. A História do Bordado no Brasil – Pontos da Cris. Disponível em: <https://pontosdacris.com.br/a-historia-do-bordado-no-brasil-um-encanto-entrelacado-por-fios-e-culturas/?srsltid=AfmBOoqEw2X9c5GznnYnASoABg8ACfJSXvv5P4QNdqjQW1_I-2IgDvlb>. 

VIANA, Iamara da Silva. “Tríplice utilização” dos corpos negros femininos: gênero, raça, sevícias e escravidão – Rio de Janeiro, século XIX. Dossiê “Reclamando a liberdade”. Revista Tempo v. 29 n 1 Jan-Abr, Ed. UFF, 2023. 

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Maternidade Negra: O Amor em forma de Resistência – Millena Salles

Uma vez, já há algum tempo, assisti à uma cena da série “Coisa Mais Linda”, produzida pela Netflix em 2019. O corte mostrava escancaradamente a diferença entre os ideais do feminismo branco e do feminismo negro, mas não foi isso o que mais me chamou atenção.

Trazendo um breve contexto, nessa produção em questão, Maria Luíza (Maria Casadevall) e Adélia (Pathy Dejesus) são duas amigas que decidem empreender juntas nos anos 1950 no Rio de Janeiro. Na cena, as duas discutem no meio de uma deserta rua após se verem diante de um grande desafio:

Malu argumenta: “Eu ‘tava lutando pelo meu direito de trabalhar. Eu deixei o meu filho na casa da minha mãe. Eu ‘tô tentando fazer alguma coisa pela minha vida, só que tá muito difícil!” 

Adélia brada: “Chega, Malu! Lutando pelo meu direito de trabalhar..? Eu trabalho desde os 8 anos de idade! A minha avó nasceu numa senzala e é difícil. Eu trabalhei 6, 7 dias na semana. Saía de casa às 4 horas da manhã, ficava mais de 1 hora no ônibus na ida, mais de 1 hora no ônibus na volta! E chegava em casa a Conceição ‘tava dormindo! Tudo isso pra pôr um prato de comida na mesa. Isso sim, pra mim, é relevante. […] Eu sinto falta da Conceição todos os dias. Seu filho já te pediu alguma coisa que você não pode dar?”

O principal contraste da relação das duas mulheres está, para além da cor da pele, na diferença entre a realidade privilegiada de Malu — recém chegada ao Rio, vinda de São Paulo — e do cotidiano de sobrevivência experienciado por Adélia, mulher negra que vive entre os morros e vielas da cidade carioca desde que nasceu, e que antes de arriscar o pouco que tinha ao se juntar a herdeira Maria Luiza, atuava como empregada doméstica nas casas de algumas famílias ricas da capital.

Confesso que essa cena talvez tenha sido uma das primeiras que me fizeram refletir sobre como algumas vivências são diferentes dependendo da sua raça, e, principalmente, como alguns padrões continuam se repetindo incessantemente mesmo após tanto tempo.

Falando da vida real e do hoje, o Brasil tem mais de 11 milhões de mães solos em seu território. Sobretudo, mulheres negras, e que vivem predominantemente nas periferias das grandes capitais do país, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Notou alguma similaridade com  a ficção ? 

Não é incomum vermos uma grande quantidade de Adélias por aí, saindo às 4 horas da manhã todos os dias para pôr um prato de comida na mesa. Sozinhas. E mesmo que não estivessem, de alguma forma ainda estariam. 

Mulheres. Negras. Mães. Cada um desses rótulos carregam sobrecargas diferentes. E isso é somente a pontinha do iceberg.

Acredito que o que mais tenha me chamado a atenção lá atrás — quando eu tinha aproximadamente 15 anos — é como a nossa sociedade estruturalmente racista recai diretamente nelas: as mães negras. Mães que são condicionadas a limitar o seu afeto, o seu tempo e a sua maternidade aos seus próprios filhos porque precisam garantir a segurança e a sobrevivência deles, independentemente de qualquer ameaça.

Isso vem desde a época da colonização. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, não é como se as consequências disso tivessem se dissipado.

Infelizmente, o racismo continua existindo. E os sacrifícios das mães negras também. 

Até porque, mesmo durante as jornadas exaustivas de trabalho e dos diversos tipos de privação, qual filho(a) de uma mãe negra nunca ouviu as seguintes frases?

“Não esquece dos documentos antes de sair de casa.”

“Esteja sempre bem arrumado (a). Vê se não esquece de passar hidratante.”

“Pegue a nota fiscal de tudo que você comprar.”

“Não corra, principalmente se estiver de capuz que é pra não te confundirem com um bandido.”

Apesar da dor de cada frase dessas, o que fica é a gratidão por, em meio à tanto caos, essas mães ainda encontrarem maneiras de salvar os seus filhos com cuidado.

Isso, pra mim, é além de relevante: é o amor em sua forma mais pura e genuína.

Um salve à todas elas, que (r)existem para que possamos ser.