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O Sonho Olímpico e a Realidade Racial: A Luta por Equidade no Esporte Brasileiro – Millena Salles

A realização das Olimpíadas e Paralimpíadas sempre despertam debates intensos sobre representatividade, especialmente quando se trata de atletas negros. O Brasil, país marcado por profundas desigualdades sociais e raciais, revela-se num cenário complexo onde o esporte se configura simultaneamente tanto como espaço de resistência quanto de exclusão para pessoas racializadas. 

Nos Jogos Olímpícos e Paralímpicos de 2024, encerrados recentemente, vimos novamente atletas negros brasileiros brilharem nos estádios e nas arenas esportivas. Contudo, essa visibilidade momentânea não deve camuflar a realidade enfrentada por esses atletas antes de alcançarem o pódio. Rebeca Andrade, Isaquias Queiroz, Beatriz Souza, Gabrielzinho….A trajetória de muitos deles é bastante parecida, sendo marcada principalmente por desafios que vão muito além da preparação física.

Falta de recursos financeiros, preconceito e escassez de políticas públicas de incentivo ao esporte nas periferias e áreas marginalizadas são apenas alguns destes obstáculos. Esses atletas, ao emergirem como vencedores, não são apenas símbolos de superação individual. Eles representam, também, um grito coletivo por medidas que garantam igualdade ao acesso às oportunidades provenientes dos esportes, mudanças que são pouco discutidas ao longo dos anos, e que são rapidamente esquecidas após encerramento de grandes eventos esportivos como os jogos olímpicos.

O esporte, especialmente em eventos de abrangência mundial como as Olimpíadas e as Paralimpíadas, é muitas vezes romantizado como uma via de ascensão social para grupos subalternos. No entanto, essa narrativa é, em grande parte, uma falácia.  Dentre todos os brasileiros que sonham em ser atletas e chegam a realizar esse objetivo, poucos são os que conseguem romper o ciclo de pobreza através do esporte, e muitos são os que, apesar do talento, permanecem invisíveis por falta de apoio adequado. As histórias de sucesso são celebradas, mas as histórias de “fracasso” – consequência direta da falta de investimentos e políticas inclusivas – raramente ganham espaço nos noticiários.

Além disso, mesmo quando atingem o ápice de suas carreiras, atletas negros ainda enfrentam o racismo estrutural, que se manifesta de maneiras diversas, desde a desvalorização salarial em comparação com atletas brancos até a crítica exacerbada em caso de desempenhos abaixo do esperado. Assim, as representatividades olímpica e paralímpica, embora importantes, devem ser analisadas com um olhar mais crítico. Elas devem ser entendidas não apenas como presença, mas como uma ferramenta para questionar e transformar as estruturas racistas — e capacitistas — que permeiam o esporte e a sociedade brasileira no dia a dia, e não apenas de quatro em quatro anos.

A questão, portanto, não é apenas celebrar as medalhas conquistadas, mas refletir sobre como podemos, enquanto sociedade, garantir que o esporte seja verdadeiramente uma oportunidade de ascensão para todos, independente de raça, cor ou condição social. 

O papel do Estado, de instituições privadas e da sociedade civil é crucial nesse processo. É necessário que as Olimpíadas não sejam apenas um evento onde atletas negros brilham por algumas semanas, mas que, na realidade cotidiana, esses atletas tenham o apoio e as oportunidades que todo cidadão merece dentro e fora do esporte, refletindo um compromisso real com a equidade racial e social.

A repercussão das Olimpíadas e Paralimpíadas de Paris reforça que os atletas negros do Brasil são, sem dúvida, potências esportivas. No entanto, enquanto persistirem desigualdades raciais e de classe, o brilho de suas conquistas será inevitavelmente ofuscado pelas sombras do racismo e da interseccionalidade. Para que o esporte, de fato, se torne um espaço de oportunidades reais para todos, a representatividade negra precisa ser acompanhada do cumprimento de direitos básicos que incluem desde a educação até a segurança e o bem estar social. Somente assim o sonho olímpico-paralímpico poderá ser acessível a todos, e o Brasil poderá, enfim, garantir que o talento de seus atletas seja celebrado ao decorrer de toda a sua trajetória.

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Lançamento: “Sarará: Memórias de Colorismo”

É com enorme prazer que o LIDD divulga, em primeira mão, o lançamento oficial do livro “Sarará: Memórias de Colorismo” da nossa querídissima líder Fernanda Carrera, que acontecerá no próximo dia 13 de setembro, no centro do Rio de Janeiro.

No cenário da produção acadêmica e das discussões sobre identidade racial, a autora – e também professora de Comunicação – instiga reflexões profundas que desestabilizam as bases epistemológicas tradicionais. 

A obra propõe um novo olhar para a área da comunicação, ao abordar a complexidade dos processos de legitimação e transgressão dentro do campo. Em um texto que se move entre o pessoal e o teórico, Carrera desfia as memórias e experiências que carregam as marcas do colorismo através da mestiçagem, oferecendo ao leitor uma teorização que emerge das relações cotidianas e da identidade, com todas as suas armadilhas e desafios.

O evento acontecerá no dia 13 de setembro (sexta-feira) das 17h às 19h na Livraria Folha Seca, Rua do Ouvidor, nº 37 – Centro, Rio de Janeiro. 

Estão todos convidadíssimos e por aqui já estamos em contagem regressiva para este momento lindo: faltam apenas 10 dias para o lançamento do ano! 

E vai ter roda samba às 18h hein!!! Você não pode perder!

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Leitura mensal: “Sarará” – Fernanda Carrera

Na última quinta (29), iniciamos nosso semestre com a leitura, em primeira mão, da primeira parte do livro Sarará, da nossa professora Fernanda Carrera. 

Sarará é um livro que, a partir da escrevivência, mistura a história de Fernanda com as memórias do cotidiano de todas nós e aponta as teorias do Colorismo. Amado por uns e evitado por outros, o colorismo é o fio da meada em uma condução sensível e potente por uma história marcada por essa dinâmica da racialidade desde a infância em Pernambués até às andanças da vida adulta. Durante a leitura, você vai rir, se identificar, refletir e se envolver pela escrita que mais parece uma conversa entre pares. Longe das normas clássicas da academia, Sarará é uma escrita que nasce da experiência, do corpo presente que sente e se encontra nos entrelugares da vida. 

Ficou curiosa? Não perca o lançamento do livro, hein! 

Será no dia 13/09 às 17h na livraria Folha Seca e vai rolar até roda de samba hein. Vai ser lindo!

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LIDDICA – 6 LIVROS PARA LER NESTE RECESSO

O ano está passando depressa e, neste pequeno recesso que o LIDD dará no meio do ano, nada melhor do que utilizar o tempo livre para colocar as leituras em dia ou iniciar leituras novas, não é mesmo? Pensando nisso, a liddica de hoje é especialmente para você!

Com base no conteúdo do LIDD, temos indicações de livros para todos os gostos e todas as idades. Veja a seguir:

• Mulheres, raça e classe – Angela Davis

• Lugar de negro – Lélia Gonzalez

• Quatro cantos – Nêgo Bispo

• Olhos d’água – Conceição Evaristo

• Amoras – Emicida

• O menino e sua árvore – Rodrigo França

Além desses sucessos literários, nossa liddica se estende ao nosso acervo, disponível aqui mesmo no nosso site. Nele você encontrará vários artigos, leituras feitas durante o ano e também os saberes do LIDD, textos escritos pelos nossos bolsistas.

Gostou dessa liddica? Comente aqui qual livro você irá ler primeiro e compartilhe outras sugestões!💜

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Você já ouviu falar sobre Racismo Ambiental?

Racismo ambiental é um termo criado por volta dos anos de 1980 pelo climatologista americano Robert Bullard. Basicamente, tal conceito evidencia uma realidade inegável definida de maneira simples e objetiva como o fato das comunidades negras e marginalizadas serem desproporcionalmente afetadas pela devastação ambiental.

Caracterizado como uma forma de desigualdade socioambiental, este tipo de racismo se torna evidente no momento em que as populações não-brancas — especialmente as populações negras, indígenas e quilombolas — se tornam mais sucetíveis à sofrerem de maneira mais intensa os impactos de enchentes, queimadas, intoxicação de água e diversas outras situações frutos das alterações climáticas, que têm piorado principalmente nos últimos anos. 

Isso acontece porque as pessoas que residem nestes territórios mais afetados estão segregadas racial ou etnicamente e, consequentemente, muitas das vezes não têm acesso à infraestruturas básicas como saneamento e arborização nos ambientes em que vivem. 

Em paralelo à isso, existe uma minoria branca e rica que usufrui livremente dos recursos naturais, explorando-os e esgotando-os para atividades como o agronegócio, por exemplo. 

O resultado de todo este cenário é a manutenção da riqueza de pessoas brancas — e, neste caso, podemos dizer que riqueza também significa conforto ambiental — em detrimento do aumento das vulnerabilidades ambientais que acarretam o cotidiano das comunidades negras, indígenas e quilombolas, que passam a desenvolver mais problemas de saúde e dificuldades para o acesso à educação, além de passarem a experimentar, também, outras formas de desigualdades causadas pela negligência social, política e econômica com seus corpos e territórios.

O combate ao racismo ambiental começa quando reconhecemos que, de fato, ele existe. Uma vez que entendemos isso, é necessário cobrar que as autoridades incluam as comunidades racializadas nos debates e decisões voltadas à saúde e ao meio ambiente. Além disso, também é fundamental que haja a implementação de políticas públicas que garantam que estas populações estejam protegidas dos riscos ambientais.

No entanto, enquanto a realidade ainda parece distante do ideal, as comunidades negras, indígenas e quilombolas têm sobrevivido através da aplicação de seus próprios saberes ancestrais, que há muito tempo se mostram sustentáveis e eficazes ao menos para sanar ao menos um pouco do problema causado pela hegemonia minoritária e branca que é a responsável por grande parte dos danos ambientais em territórios marginalizados. 

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HETEROCENTRISMO – Um dispositivo de poder

Dedê Fatumma (2023), em seu livro Lesbiandade, faz análises críticas sobre discursos baseados no heterocentrismo, que considera as identidades de gênero e orientação sexual a partir de um padrão normativo, envolvendo relações de poder. Trata-se de um conjunto de discursos sociais respaldados por vertentes científicas que submetem orientações sexuais e identidades de gênero à “primazia de uma heterossexualidade compulsória” (JESUS, 2013). Articulado com categorias patologizantes das ciências médicas, essa dinâmica impõe formas hegemônicas de viver, definindo a heterossexualidade como a única possibilidade de relação natural e normal.

Influenciando o pensamento ocidental e inserindo-se na tradição do modernismo (BIRMAN, 2012), a psicanálise levou campos como a medicina e a psiquiatria a reforçarem discursos patriarcais e lesbofóbicos baseados em fundamentos de Freud, como revela o estudo de caso clínico sobre uma jovem lésbica:

“O que certamente tem importância maior é a jovem, em seu comportamento para com seu objeto amoroso, haver assumido inteiramente o papel masculino, isto é, apresentava a humildade e a sublime supervalorização do objeto sexual tão características do amante masculino […]. Havia, assim, não apenas escolhido um objeto amoroso feminino, mas desenvolvera também uma atitude masculina para com esse objeto.” (FREUD, 1920, p. 148)

Freud adota o heterocentrismo como perspectiva em sua análise ao afirmar que a orientação sexual de sua paciente corresponde a um comportamento masculino. Esse discurso manteve o regime sexual (FATUMMA, 2023) conduzido pela patologização dos corpos “desviantes”. Assim, mulheres lésbicas eram submetidas a internações em hospitais psiquiátricos e terapias de reorientação sexual, além do uso de eletrochoques e hormônios femininos na tentativa de corrigir “anormalidades” (Daniel & Baudry, 1977).

Em 1973, a homossexualidade foi retirada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno mental, e nove anos depois, a Organização Mundial de Saúde (OMS) excluiu a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID). No entanto, discursos de ódio continuam sendo alimentados por pensamentos fundamentalistas e conservadores, refletindo-se nos dados sobre violências lesbofóbicas, como estupro corretivo e lesbocídio. Esse raciocínio é essencial para entender as interseccionalidades na vida das mulheres lésbicas negras.

A celebração do mês do Orgulho LGBT é, portanto, de extrema importância. Esse período não apenas reconhece as conquistas alcançadas pela comunidade LGBT ao longo dos anos, mas também ressalta a necessidade contínua de combater preconceitos e discriminações. O Orgulho LGBT promove visibilidade, apoio e solidariedade, além de fortalecer a luta por direitos iguais e o respeito às diversas identidades e orientações sexuais. Celebrar o Orgulho LGBT é reafirmar o compromisso com a igualdade e a dignidade para todas, todes e todos, independentemente de sua identidade ou orientação, criando um espaço de resistência e afirmação contra a opressão histórica e atual.